"João tem 4 anos, é um garoto muito agitado, com um comportamento desorganizado e impulsivo. A família tem muita dificuldade em controlar o seu comportamento: o João nunca sossega, não se detém em nenhuma atividade, está sempre a saltar, a correr, desarruma tudo, só faz asneiras; parece que nem os ouve e às vezes só agarrando-o é que o conseguem deter." (QUEIROS et. al., 2003).
Quem nunca presenciou a cena de uma criança gritando, chorando ou até se esperniando por querer algo que lhe é recusado pelo adulto? Quem nunca presenciou uma cena em que a criança emite um comportamento muito conhecido chamado: BIRRA? Contudo, o que vem a ser a birra? É um comportamento genético? É traço imutável da personalidade da criança? É consequencia da relação com os pais? Ou, como muitos adultos declara: "é uma criança-problema"? Será que caracterizar a criança como sendo "a criança-problema", não está propiciando a criança desenvolver a crença que de fato ela é a criança-problema, internalizando isso e sendo de fato esta criança-problema, assumindo esta caracteristica como se fosse realmente uma característica sua?
Segundo a pesquisa de Queiros, muitas perturbações da criança pequena são, antes, perturbações da relação com o adulto, dada a sua dependência física e psíquica deste, e a influencia das perturbações da relação sobre o seu desenvolvimento. Ou seja, na maioria dos casos de problemas de comportamento em crianças pequenas, há uma perturbação na relação desta com as figuras parentais, cruadores, educadores e demais adultos que são referências para esta criança (QUEIROS, O. et. al. 2003).
Já segundo outra pesquisa ((BOLSONI-SILVA; PAIVA; BARBOSA, 2009), os problemas relacionados ao comportamento infantil de birra e agressividade está relacionado as habilidades sociais dos pais. A dificuldade de interação social,a partir de dificuldaes nesssas habilidades sociais são muito identificadas nas interações estabelecidas em geral, o que não é diferente no caso do relacionamento entre apis e filhos. Para estes autores, o comportamento socialmente habilidoso ocorre quando o indivíduo consegue expressar atitudes, sentimentos (positivos e negativos), opiniões e desejos, de maneira que possa respeitar a si próprio e aos outros, dessa forma possibilitando a resolução de problemas de forma imediata e diminuição de problemas futuros. Foi trabalhado nesta pesquisa,o conceito de Habilidades Sociais Educativas Parentais, que são as habilidades sociais aplicáveis às interações entre pais e filhos. Por outro lado, pessoas que tem dificuldade nas habilidades sociais, que podem ser tanto comportamento negligente como podem ser agressivos que a criança aprende a imitar.
Em algumas pesquisas levantadas pelos mesmos autores, levam a hipótese de que famílias de crianças com problemas de comportamento tem como características uma desorganização, mais problemas emocionais ou de comunicação e apresentam comportamentos e modelos "idesejáveis" para o desenvolvimento social e até cognitivo das crianças. Essas famílias, geralmente, tem uma dificuldade em disciplinar de forma consistente, há pouca interação positiva e uma supervisão insuficiente das atividades das crianças. É muito comum essas famílias "deixarem a criança a vontade" até que ela "passa dos limites" e a correção é uma bronca por impulso, gritos, tapas, castigos que acabam não tendo a função desejada pelos mesmos familiares, pois, muitas vezes, não tem sentido para a criança que não foi disciplinada ou corrigida no momento da ação e nem foi explicado a ela o motivo da correção e as consequencias. O que provavelmente vai acontecer é que ocomportamento irá se repetir, principalmente se essa criança se sente "esquecida" pelos familiares, pois seu comportamento "errado", de certa forma chamou a atenção de todos para ela.
Na visão winnicottiana (GOLOVATY, M. s.d.), os comportamentos tidos como tendências anti-sociais estão intimamente ligados à privação. Estão relacionados à falhas que ocorrem na relação interpessoal da criança com seus pais, relação que estava, num primeiro momento, sendo suficientemente boa e, por algum motivo, sofreu uma transformação repentina, uma ruptura ocorrida no perídodo de amadurecimento da criança no qual ela já tem uma noção do que aconteceu com ela. Para Winnicott, a tendência anti-social é, de fato, uma tentativa inconsciente da criança em comunicar esta falha ocorrida. Esta falha ambiental não precisa, necessariamente, ser grosseira, ela pode ser sutil e, muitas vezes, passa desapercebida por todos, desde uma mudança no humor da mãe pela chegada de um novo filho até o fato ta mãe ter que se ausentar por um período de tempo que a criança não estava habituada (começar a trabalhar, por exemplo). Essas falhas não são culpa dos pais, nem tampouco a criança. São fatos que ocorrem sem serem percebidos e que podem ou não desencadear uma tendência anti-social.
Na visão psicossocial do psicanalista Ericson (ERIKSON; ERIKSON, 1998), é importante para o desenvolvimento e amadurecimento do ego criar uma confiança de que o mundo é seguro, de que vale a pena viver, de que ele é desejado e amado. A confiança perante a vida e os outros é essencial para o desenvolvimento da tolerância a frustrações. A criança passa por frustrações necessárias ao seu desenvolvimento: não ter a mãe sempre presente, por exemplo, em um dado momento ela se ausenta.
De forma mais simples, famílias que transmitem maior segurança a criança e que tenha uma interação com habilidades sociais eficientes conseguem transmitir essas habilidades e esta segurança a criança potencializando, assim, seu desenvolvimento de forma positiva social, cognitiva e afetivamente.
A partir destes levantamentos, podemos refletir que: quando se trata de uma questão de comportamento da criança, se fala de todo o contexto familiar sempre. Pois estão intimamente relaiconados. Portanto, trabalha para melhorar ocomportamento de birra ou de agressão de uma criança, o ideal é trabalhar todo o contexto familiar, trabalhar a família em si. Pois, a birra da criança, nada mais é, que um sintoma da desorganização social e afetiva da família que está inserida. A criança é o reflexo da dinâmica familiar.
O primeiro passo na resolução do problema de comportamento da criança é a desmistificação do termo criança-problema, pois se este comportamento da criança é o reflexo, o sintoma, então a criança não é o problema, ela apenas reflete de forma mais visível um problema da própria dinâmica familiar. Sendo assim, trabalhar e modificar estes pensamentos negativos em relação a criança é o passo inicial. O segundo passo, é identificar e modificar os pensamentos e crenças nos quais esse problema da dinâmica familiar está fundamentado. Muitas vezes, o problema está exatamente nas habilidades sociais, que podem ser trabalhadas. A dificuldade está em estabelecer uma armonia, um equilíbrio entre o que a pessoa sente e o que ela expressa. Entre o que ela pensa e o que ela diz. Um trabalho voltado para o auto-conhecimento e conhecimento dos seus familiares é um passo positivo e, claro, sempre valorizando a criança, não mais como a criança-problema, mas como um ser em desenvolvimento, em contrução de sua personalidade e com grande potencial a ser desenvolvido e o que ela mais precisa para conseguir isso é que sua família, principalmente os pais, acreditem nela. Ela desenvolverá a capacidade de acreditar em si mesma a partir do fato de sentir que os pais acreditam nela.
Essa questão da birra da criança, dos comportamentos agressivos, dos problemas da dinâmica familiar e dificuldades nas habilidades sociais são fatores que podem ser trabalhados em psicoterapia, com auxílio de um profissional preparado. Um auxílio profissional não significa a incapacidade da família em lidar com o problema, mas, pelo contrário, é um sinal da preocupação da família e uma disposição em ajudar a mudar esta situação que gera sofriemento desnecessário a criança e a família que não consegue e não sabe lidar com esta situação de forma eficaz.
Concluo este texto com a seguinte afirmação: vale a pena acreditar no potencial positivo das crianças, principalmente dos nossos filhos!
Referências:
BOLOSI-SILVA, A.; PAIVA, M.; BARBOSA, C. Problemas de comportamento de crianças/adolescentes e dificuldades de pais/cuidadores: um estudo de caracterização. pSICOLOGIA cLÍNICA vol.21 no.1 Rio de Janeiro 2009. P 169-184. Disponível em: <
ERIKSON, E. H. e ERIKSON, J. O ciclo da vida completo. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1998
Médicas, 1998
GOLOVATY, M. A tendência anti-social na teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott: Um apelo esperançoso. Psiquêvida. s.d. Disponível em: <
http://www.psiquevida.com.br/downloads/literatura2.pdf>. Acesso em 30 ago. 2012.
LEITE, W. O poder de acreditar em si mesmo. Blog Psicoweslei. 8 mai. 2012. Disponivel em: <
http://psicoweslei.blogspot.com.br/2012/05/o-poder-de-acreditar-em-si-mesmo.html>. Acesso 31 ago. 2012.
QUEIRÓS, O. et. al. O outro lado das birras: alterações de comportamento na 1ª infância. Análise Psicológica.vol.v.21 n.1 Lisboa jan. 2003. p 95-102.Disponível em: <
http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?script=sci_serial&pid=0870-8231&lng=pt&nrm=iso> Acesso em 30 ago. 2012.



Nenhum comentário:
Postar um comentário