"Dois monges cuidavam do jardim do templo. Um deles estava podando um roseiral quando, num momento de descuido, os espinhos rasgaram a manga de seu hábito e feriram seu braço, fazendo-o sentir muita dor. O monge, então, olhou para o roseiral e disse:
_Eu te perdoo.
Algum tempo depois, o segundo monge também se aproximou do roseiral e feriu o braço, o que o levou a sentir muita dor. Olhando para as rosas, ele disse:
_Não há nada a perdoar.
Ao voltarem para o templo, os dois monges perceberam que ambos tinham ferimentos semelhantes. Ao conversarem sobre o que havia acontecido, um começou a questionar a atitude do outro. Como não conseguiram chegar a uma conclusão sobre qual deles tinha agido de maneira certa, decidiram contar o episódio ao abade do templo e pedir sua opinião.
_ Você foi arrogante, disse o abade ao primeiro monge _ E você agiu certo, disse ao segundo monge.
O primeiro monge ficou surpreso e questionou o abade.
O abade respondeu:
_Devemos perdoar sempre, desde que exista algo para perdoar. O roseiral é um ser inanimado, que não se move por vontade própria. Ele não feriu você deliberadamente, nem poderia. Você é que se descuidou e se feriu no roseiral. A dizer que o perdoava, você atribuiu a ele uma culpa que ele não tem. Com isso, você ignorou sua responsabilidade como ser consciente que é e ainda usou o perdão como demonstração de superioridade. Isso é arrogância."
Atribuir a culpa a alguem ou em alguma situação que seja nossa própria é algo comum a muitas pessoas, que fazem isso, na maioria das vezes, sem nem perceber. Admitir os próprios erros, pedir perdão ou perdoar alguem é algo muito difícil e que denota maturidade, alem de ser bom para a saúde... Bom para a saúde?
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Questionamentos a essa definição a parte, se saúde é o bem-estar fisico-mental-social, o perdão é saúde: pois alivia a mente e melhora as relações sociais, por consequencia, sensações como angústia e ráiva presentes no corpo são aliviadas. Esse texto pretende refletir sobre o perdão e a culpa sob dois aspectos: a capacidade de perdoar e a culpa com suas consequências.
A capacidade de Perdoar
O conto ilustra bem as faces do perdão: perdão como ato consciente em relação a outra pessoa que consientemente fez algo que prejudicasse o peimeiro, ou seja, se perdoa quem, de fato, tem culpa por algo que fez. E perdão como ato de arrogância, quando atribuímos culpa a algo ou alguem que não tem, porem, nossa percepção da situação nos leva a interpretar e a depositar esta culpa a pessoa ou situação que não tem.
Consideramos que para que haja perdão, é necessário um fato cujo autor é perdoado, ou seja, há uma culpa, um sujeito que prejudicou, machucou, magoou outra pessoa. Perdoar é reconhecer a culpa do outro, porém, compreender que este sujeito, independente de admitir a culpa ou não, merece ou deve ser perdoado. Perdoar, mais do que favorecer o outro, é favorecer a si mesmo. Como se favorecer se eu perdoo o outro? Não perdoar é muito próximo do sentimento de mágoa, rancor, ódio, raiva, sentimentos negativos que trazem sensação incômoda ao indivíduo. Pode até "limitar" o individuo rancoroso, que acaba, muitas vezes, evitando um grupo ou situação por causa de alguem que não consegue perdoar, ou ainda a provocar uma situação exatamente por haver no local alguem por quem sente rancor. Esses sentimentos e pensamentos trazem desconforto não só ao corpo, como também a mente e às relações sociais do indivíduo. Ou seja, não conseguir perdoar, não é bom para a saúde. A maioria das religiões, mesmo com tanta diversidade, consideram o perdão como importante para o bem-estar do indivíduo, o bem-estar da alma, do grupo etc. Um exemplo é o conto budista que refletimos, outro exemplo é a passagem bíblica: "Quando São Pedro pergunta a Jesus: 'Quanta vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?' Jesus respondeu-lhe: 'Não digo até sete, mas até setenta e sete vezes' (Mt 18, 21s) que significa perdoar sempre.
A capacidade de se auto-perdoar, de compreender a si mesmo e aceitar a si mesmo e os próprios defeitos também é tarefa difícil
Para Rogers (1987), Aceitar-se a si mesmo é um pré-requisito para uma aceitação mais fácil e genuína dos outros. Para conseguir perdoar o outro, é necessário aprender a perdoar a si mesmo, reconhecer os próprios defeitos e limitações. Compreender que somos humanos, passíveis de erros, mas que podemos aprender com estes mesmos erros e seguir em frente com nossa vida. Como há dificuldade em compreendermos a importância de perdoar a si mesmo e ao outro, como forma de diminuir sentimentos e pensamentos negativos.
A culpa e suas consequências
Segundo a visão da Psicologia Comportamental (GUILHARDI,2002), a condição essencial para os comportamentos e sentimentos genericamente chamados de sentimentos de culpa é a classificação de determinado comportamento emitido como sendo "inadequado", ou concordar com quem assim o classifica, ou seja reconhecer essa resposta comportamental como pertencente a uma mesma classe de respostas que foram punidas anteriormente e o reconhecimento que tal comportamento foi emitido pelo sujeito.
Na visão psicanalista (1996), o sentimento de culpa está ligado a "castração", ou medo de perder o "falos", que ocorre na fase fálica proposta por Freud, durante o Complexo de Édipo. O Complexo de Édipo é um conflito vivido por todos nós no desenvolvimento da nossa personalidade, isso ocorre na fase fálica, segundo Freud (1996), esse conflito consiste no desejo que o menino ou menina em relação a figura parental do sexo oposto ao seu e a rivalidade com a do mesmo sexo ao mesmo tempo, a impossibilidade de possuir o seu objeto de desejo e o Complexo de Castração, no qual, segundo Freud (1996), as crianças acreditam que todas as outras possuem pênis e a menina, percebendo que não possui, sente-se castrada e culpa a mãe e se aproxima do pai, levando efetivamente ao Complexo de Édipo, nesse caso, a menina sente inveja do pênis do menino. Já o menino possui o medo da castração, ao perceber que a menina não possui o pênis, sente medo de também ser castrado pelo pai, por descobrir seu desejo por sua mãe. O sentimento de culpa começa a surgir por causa da rivalidade e o ódio reprimido, por ser inconcebível odiar a mãe ou o pai, dependendo o caso.
O sentimento de culpa é muito presente em todos nós. Independente da explicação, a culpa está relacionada a regra moral, ao considerado "certo" ou padrão na sociedade e a um fato ou ação que "fere" esta moral ou regra. Ou seja, a culpa é consequencia de um ato considerado errado perante a sociedade ou considerado errado segundo os valores internalizados peo indivíduo. A culpa faz parte do ser humano. O problema está na forma de lidar com esta culpa: se perdoar, continuar se culpando, incapacidade de reconhecer a culpa, culpar os outros etc.
Muitos buscam psicoterapia hoje porque tem uma dificuldade muito grande em se perdoar, se aceitar tal como é, com baixa auto-estima entre outros sentimentosm e pensamentos negativos relacionados a si mesmos e que precisam de auxílio para melhorar os significados e pensamentos em relação a si mesmo. Como anda seu relacionamento consigo mesmo? Anda brigando muito ? cobrando muito? Se perdoar é uma tarefa difícil, como já dito, é uma tarefa difícil, mas com ajuda de uma psicoterapia, é superável.
Há aquelas pessoas com dificuldade em reconhecer culpa, pessoas mais egocêntricas, ou seja, centradas em si mesmas com certo grau de infantilidade, pois o egocentrismo é típico da infância. É mais fácil culpar os outros pelos próprios erros. Acabamos atribuindo uma culpa que não é da outra pessoa ou da situação, como no conto relatado na introdução este texto. A psicoterapia também auxilia as pessoas com essa dificuldade em reconhecerem o outro, enxergarem o outro, perceberem o outro e se responsabilisar por suas próprias culpas. Porém, existem aqueles que, por algum trantorno, tem uma extrema dificuldade em reconhecer sua culpa ou em admitir que prejudicou alguem para conquistar algue que deseja. E ainda aqueles que não conseguem, de fato, sentirem culpa, que é o caso de alguns transtornos de personalidade, como o transtorno de personaloidade anti-social (o psicopata). Ainda existem aqueles que por causa da psicose ou deficiência intelectual não conseguem compreender a diferença do certo e errado, do socialmente aceito e do socialmente repudiado.
"Um casal, recém casados, mudou-se para um bairro muito tranquilo.
Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:
- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal!
Provavelmente está precisando de um sabão novo. Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
O marido observou calado.
Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:
- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.
Passado um mês a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis brancos, alvissimamente brancos, sendo estendidos, e empolgada foi dizer ao marido:
- Veja ! Ela aprendeu a lavar as roupas, será que a outra vizinha ensinou !? Porque , não fui eu que a ensinei.
O marido calmamente respondeu:
- Não, é que hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!"
O que muitas vezes está deturbada não é a cena observada, mas nossos olhos, nossa percepção está embaçada, obstruída. Mudar os sentidos e significados das situações em nossas vidas, o que pensamos a respeito dos outros e de nós mesmos, nossa expectativa em relação ao mundo. Tudo depende do pensamento que temos em relação a tudo isso. Que pensamento você tem a respeito de você mesmo?
Referências:
A BÍBLIA DE JERUSALEM: tradução na língua de hoje. São Paulo: Editora Paulus, 2002
Guilhardi, H.J.Análise comportamental do sentimento de culpa. In A. M.S. Teixeira, M.R.B. Assunção, R.R. Starling & S. dos S. Castanheira (Eds.), Ciência do Comportamento – conhecer e avançar. Santo André: ESETec Editores Associados. ano 2002, p. 173-200. Disponível em <
http://www.intranetibac.com.br/download/texto_ibac/analise/culpa_guilhardi.pdf>. Acesso em 03 ago. 2012.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), In: Freud, S. Publicações pré-psicanalíticas e esboçoes inéditos. ESB Vol I. Rio de Janeiro: Imago, 1996
O perdão, um conto budista. Disponível em: <http://www.midiaemeio.com.br/paginas_pessoais/o-perdao.htm>. Acesso em 03 ago. 2012.
ROGERS, C. Sober o poder pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 1978
SEGRE, M.; FERRAZ, C. O conceito de saúde. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 31, n. 5, OUT. 1997 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101997000600016&lng=en&nrm=iso>. acESSO EM 03 AGO. 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101997000600016.






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