sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O envelhecer e a qualidade de vida

 
 
 
O envelhecer é nada mais que um processo natural de todo ser vivo. Desde o nascimento, caminhamos passo a passo para o envelhecimento e o fim da vida. Porém, como parte da vida, a velhice também pode ser bem vivida ou mau vivida, dependendo das condições que se disponibiliza para isso.

Envelhecer engloba todos os aspectos do ser humano, não apenas o físico debilitado comparado a juventude, mas também envolve aspectos psicológicos, sociais, ambientais e das crenças e valores particulares do indivíduo. Todos estes aspectos influenciam na qualidade de vida do idoso. Ao falar da qualidade de vida do idoso não dá para se falar de um aspecto apenas como o mais importante, mas na pessoa como um todo em todos os seus aspectos, pois um influencia direta ou indiretamente os outros. Aquele que sofre uma debilidade física, se vê diferente de quando era jovem, o que pode causar um sofrimento psicológico, assim como social e ambiental, por ter maior dificuldade de locomoção, por acabar se tornando dependente dos outros, se tornando, como pensam alguns idosos, "um peso para a família", bem como muitos familiares também tem esse tipo de pensamento.

Erikson, em sua teoria do desenvolvimento psicossocial, chama a última etapa do desenvolvimento de Integridade x Desespero. Ao chegar nesta fase da vida, segundo esta teoria, o indivíduo tem duas possibilidades: um desfecho positivo, no qual a pessoa procura estruturar seu tempo e se utilizar das experiências vividas em prol de viver bem seus ultimas anos de vida, e um desfecho negativo, no qual ele estagna diante do fim, entrando em desespero: surge sentimentos e pensamentos do tipo: "o tempo acabou"; "nada mais posso fazer pela sociedade", essas pessoas vivenciam uma nostalgia e tristeza por sua velhice. Contudo, existem aqueles que se julgam os mais sábios, e costumam impor suas opiniões em nome de sua idade e experiência.

Pensamentos negativos e de caráter pessimista em relação à última etapa da vida podem ser desencadeadores de sintomas depressivos, falta de vontade de viver ou de aproveitar o tempo de vida nestes anos, que poder durar 30 anos, por exemplo, considerando a expectativa de vida hoje. Então, como está pessoa vai passar seus "últimos 30 anos"? 30 anos é muito tempo! Muitas pessoas não chegam aos 30 anos vivos. A pessoa tem dua opções: viver bem ou não esses 30 anos. Porém, a qualidade de vida nesta idade não depende apenas de pensamentos positivos, mas já são de grande ajuda. Para Pereira et. al. (2006), uma avaliação da qualidade de vida envolve quatro domínios importantes: o físico, o social, o psicológico e o ambiental.





Aspectos físicos da velhice

 

No processo de envelhecer o indivíduo passa por diversas alterações que são um processo natural iniciado no nascimento. Desde antes de chegar ao que muitos denominam 3ª idade, algumas alterações físicas, que também afetam outras áreas da vida do indivíduo, já começam a surgir como a menopausa nas mulheres, por exemplo, a calvice, a predominância dos cabelos brancos, a andropausa, que é um declínio na produção de testosterona nos homens. Ainda há quem pense e até publique textos afirmando que essas alterações naturais são "doenças do envelhecimento", que na verdade são parte do processo natural do desenvolvimento do ser humano. Há também algumas enfermidades e debilidades típicas dessa idade como as que afetam os músculos e ossos (

sarcopenia - perda degenerativa de massa e força nos músculos com o envelhecimento -, degeneração articular, artrose, osteoporose, as tendinopatias como burcites, tendinites crônicas e as dores crônicas), aquelas que afetam os olhos (vista cansada ou presbiopia, catarata, degeneração macular, glaucoma, retinopatia diabética.), doenças vasculares (varises, hipertensão arterial, riscos de acidente vasculares cerebral, doenças cardíacas), perda gradativa de audição, degeneração ou falência de orgãos como pulmão, fígado, rim etc. Principalmente em pessoas que já apresentam sintomas desde a juventude, pessoas que possuem uma vida sedentária, que não tem hábito de prevenção e de fazerem acompanhamento médico, falta de alimentação saudável, vícios como álcool e tabagismo e acidentes recorrentes das debilidades físicas.

Muitas pessoas tem o hábito de associar a velhice com doenças, como se envelhecer fosse sinônimo de adoecer, o que não é verdade. Cada vez aumentam mais as possibilidade de tratamentos e prevenção dessas doenças típicas da velhice e que não impedem o indivíduo de viver. Há pessoas idosas que possuem diversos problemas de saúde, mas são felizes, vivem bem e muitos mais saudáveis que muitos jovens que não tem hábito de cuidar da saúde.

 

Aspectos sociais da velhice



Alguns fatores que ocorrem nesta fase da vida influenciam diretamente da vida social do indivíduo: A perda de familiares e amigos, por mais que o indivíduo cuide da saúde, todo organismo um dia falece. Quando se chega as idades avançadas, é comum acompanhar a morte do conjuge, morte dos irmãos, a morte de amigos próximos, visinhos etc. O idoso acaba ficando isolado. Os familiares mais jovens, muitas vezes, não tem paciência com os seus idosos e, ainda, não tem recursos para cuidar de seus pais e avós idosos. Prova disso são o crescimento do número de casa de longa permanência para idosos. Porem, muitos projetos de ong, clubes particulares, movimentos religiosos oferecem alternativas a vida solitária do idoso: bailes e clubes da terceira idade, atividades voltadas a este público, academias com atividades adaptadas, grupos religiosos, mesmo programas do governo como o CRI (Centro de Referência do Idoso) e o CRAI (Centro de Referência do Atendimento ao Idoso). Até as redes sociais da internet se tornaram meios alternativos para as pessoas idosas se relacionarem e conviverem. Contudo, a convivência em grupos sociais diversos, seja ele presencial ou virtual, não substitui a convivência com a família. O próprio indivíduo começa a se sentir indesejado, esquecido, desvalorizado e se sente um "peso" para a família. A pessoa nessa idade se sente carente de atenção e cuidados, do contato físico e social. Sente falta de ser valorizado principalmente pela família. Velhice não é sinônimo de incapacidade, pelo contrário. A sabedoria e a experiência dos mais velhos contribuiriam muito para a sociedade se as pessoas, que se acham sábias por terem diplomas e certificados de cursos, as ouvissem mais e dessem mais valor a sua opinião.


 

Aspectos psicológicos da velhice



Os dois fatores psicológicos mais comuns nesta fase da vida é a depressão e a debilidade cognitiva.

A depressão na velhice pode ser causada por diversos fatores, dependendo das teorias, hipóteses e do profissional que avalia a situação. Desde fatores psicossociais como a frustração por se sentir inpotente (sentimento comum ao aposentado que trabalhou a vida toda), incapaz de trabalhar e colaborar coma família e sociedade, desespero por estar perto da morte, o próprio medo da morte; à fatores afetivo-emocionais, como sentimento de abandono, carêcia afetiva, alterações de humor, baixa auto-estima etc. Até fatores físicos como a hipótese do colesterol influenciar na depressão (Portal Educação), relações com a hipertensão, alterações hormonais (menopausa e andropausa), entre outras doenças diversas que podem colaborar.

O número de idosos com depressão é grande e é preocupante. O alto índice de depressão nesse período da vida pode ser consequencia dos pensamentos negativos individuiais e próprios da nossa cultura em relação ao envelhrecer. Nossa cultura associa envelhecer com doença, debilidade física, peso para a família e com a morte. O indivíduo acaba se apossando desses pensamentos para si e acreditando que ele é isso mesmo. Que não há possibilidaes. Acaba por não viver os seus últimos anos, se é que pode chamar de ultimos anos os 30 ou 40 anos que a pessoa pode viver depois de ser "denominada" idosa pelo estatudo ou por si mesma. Pensamentos cristalizados e negativos como estes não devem ser aliemntados. Para um envelhecimento saudável, pensamentos positivos, porem realistas, ajudam muito. Mudar pensamentos enrigecidos não é fácil, mas depende do quanto cada um quer ser feliz e aproveitar sua vida enquanto vive. Porque de que adianta viver muitos anos se os viver depressivamente e reclamando de tudo na vida? Melhor aproveitar este período se esforçando para ser feliz, para serem melhores a cada dia.

A perda da habilidade cognitiva está fortemente marcada pela perda da capacidade de memória, principalmente a memória imediata e intermediária.
o esquecimento de fatos recentes não é considerado uma doença e sim um fato normal para a idade sendo denominado lapso de memória. A debilidade cognitiva está relacionada a diversos fatores, um deles é a própria depressão. Outro fator, é mais natural, é a perda de neurônios no decorrer da vida. As doenças dos sistema nervoso mais comuns nos idosos são: Esclerose Múltipla, Doença de Parkinson, Doença de Huntington, e a famosa Doença de Alzheimer que é a principal causa de debilidade cognitiva em idosos.

Para falar de debilidades cognitivas, é preciso entender como funciona o que mais é afetado em idosos, ou, pelo menos, o que aparantemente é afetado: A memória. A memória, diferente do que muitos pensam, não é um armazém de lembranças, mas um processo que recria as informações aprendidas. A aprendizagem também é um processo cognitivo que é considerado debilitado com a idade, este processo é o de aquisição de novas informações e assimilação ou associação destas com outras informações aprendidas. Estas informações aprendidas a partir de estímulos externos ao indivíduos são pensamentos, que nada mais são do que representações mentais destas informações aprendidas. Todo este complexo processo de memória depende de uma habilidade cognitiva muito importante e que muitas vezes é esquecido: a atenção.

A atenção é uma ação psíquica que necessita determinado esforço e treino, pode ser voluntário, onde o indivíduo escolhe o foco de sua atenção, ou espontâneo, quando um fator externo "captura" o foco do indivíduo, por exemplo quando se ouve um barulho alto de repente, no exato momento a atenção se volta para o barulho. A atenção é o mecanismo pelo qual nos mantemos o foco sobre um determinado objeto externo ou pensamento, é a capacidade de coloca em primeiro plano um estímulo e colocar os demais em segundo plano. Este foco pode oscilar, no qual um estímulo que antes era segundo plano, passa a ser o primeiro e pode oscilar de novo, tornando um terceiro estímulo o foco da atenção. Quanto mais se treina esta habailidade de manter o foco por determinando tempo, mais se consegue aumentar o tempo em que o foco é mantido. Manter a atenção, como ação psíquica que necessita de esforço, pode se fadigar e falhar quando o indivíduo está cansado ou quando está sob efeito de remédio que inibe o sistema nervoso, como analgésicos, por exemplo. O álcool e algumas drogas também afetam a capacidade de atenção, ou quando o indivíduo sobre algum traumatismo craniano, mesmo leve, mas que causa torpor. A atenção é melhor quando o indivíduo está descansado. A atenção depende também do interesse do indivíduo. Um fator que interfere muito na atenção é o estresse e a ansiedade em si, neste estado o indivíduo acumula uma grande quantidade de pensamentos ao mesmo tempo, o que dificulta no processo de focar um pensamento só e manter o foco nele por muito tempo. Se o indivíduo não consegue manter o foco sobre o que faz, não vai "apreender" a informação e, consequentemente, não vai conseguir recriá-la, que é o processo de memória.

Portanto o estresse, a ansiedade, medicamentos que afetam o sistema nervoso, a depressão e outros transtornos ou patologias afetam a capacidade de atenção e, consequentemente a memória, geralmente é a memória imediata que é afetada nestes casos: esquecer onde colocou a chave, o assunto que estava conversando, de trancar o carro ou a casa, de tomar algum remédio etc.

Diferente das patologias que afetam de fato a memória, esses problemas de atenção podem ser trabalhados em psicoterapia.

Outro fator psicológico importante é a percepção de si mesmo. Quando indivíduo começa a se perceber mais velho, imaginemos um exemplo: um homem trabalhador, provedor do sustento da família por anos, que era forte e ágil, ainda jogava futebol aos fins de semana com os amigos, com o tempo percebe que não aguenta mais jogar futebol, que sua força e agilidade diminuem, hoje se vê em casa, dependente dos filhos, aposentado, não é mais o provedor da casa, perde sua identidade com sua vida profissional (que é uma grande perda para muitas pessoas), ao se perceber neste estado, sente-se triste, depressivo. Vê a esposa morrer e seus irmãos aos poucos também vão indo. Como o indivíduo se percebe neste contexto? Outro exemplo: uma mulher que é linda, mãe de muitos filhos, que conseguia dar conta de cuidar da casa, dos filhos e ainda trabalhar fora, alem de sempre estar envolvida em eventos sociais ou na igreja. Com o tempo se percebe com a aparência diferente, não se vê mais tão bonita, os filhos crescem, não dependem mais dela, não consegue mais dar conta dos serviços domésticos, pios lhe falta força, já não trabalha mais, pois já se aposentou ou abandonou o emprego para poder dar conta dos filhos. Enfim, muitas vezes perde o interesse pelo sexo, isso ocorre com ambos, homens e mulheres.

A identidade se perde, o que acontece é que hoje acostumamos a identificar nossa identidade com o que fazemos ou fizemos durante a juventude e o período da fase adulta até o momento em que nos auto-denominamos "idosos", "velhos". Culturalmente associamos o idoso a um ser "assexuado", dependente, que não tem opinião ou que, por ter limitações físicas e algumas debilidades cognitivas já não tem mais poder de opinar sobre si. Nos esquecemos que esta pessoa tem uma história, uma vida, sente necessidade de toque, atenção, carinho e de se sentir amado, sente desejo e atração sexual como todo mundo. Sua experiência de vida lhe confere um conhecimento sobre a vida que os jovens ainda não tem.



Aspectos ambientais



Observando os aspectos ambientais, temos que levar em conta que certas limitações ou debilidades físicas e psicológicas influenciam e muito neste aspecto. Uma casa com escadas, por exemplo, para uma pessoa que necessita de bengala para se locomover é um complicador. Muitos são os espaços públicos que ainda não se adaptaram para as pessoas idosas: rampas, elevadores, letras grandes nas placas de informações etc. A própria casa da pessoa idosa deve ser adaptada para melhor se locomover.

Outra questão importante é o da apropriação do espaço. Nós temos essa tendencia de nos apropriarmos dos espaços, identificando este espaço como um complemento de nós mesmos. Investimos sentimentos, lembranças e tem uma dificuldade em nos desapegarmos deles. Com pessoas idosas é a mesma coisa, mas imagine uma pessoa que se apropriou de um espaço, sua casa, e construiu neste espaço uma história de 50, 60 ou 70 anos? Quando decidimos pelos idosos de nossas famílias a se mudarem de casa ou em colocá-los em casa de longa permanência, muitas vezes não pensamos no quanto é difícil para eles se desapegarem de seu espaço, onde tem muito de sua identidade e de sua história.

Falando de casa de longa permanência, que muitos ainda chamam de "asilo para idosos", muitas vezes se faz necessário para aquele idoso com problemas de saúde, com grandes debilidades cognitivas no qual a família não tem recursos para cuidar mais. Mas, vamos imaginar, estar numa casa onde acaba perdendo sua identidade, pois são tantos idosos que por mais humano que seja o atendimento, acaba sendo mais um num grande grupo. Perde sua privacidade, pois não tem mais um quarto seu, dorme no mesmo quarto que outras pessoas que não conhecia antes. Ainda tem muitas casas com "cara de hospital", cheio de técnicos, cuidadores e enfermeiros de branco, com frequentes visitas de médicos e fisioterapeutas. Sentem como se velhice fosse sinônimo de doença. Estão "internados" até os últimos dias de sua vida. Como será para este indivíduo estar num espaço como este?


 

Conclusão



O envelhecer, como dito no início, é um processo natural, mas para muitos, é um processo difícil. Não podemos fechar os olhos para as limitações típicas da idade, não podemos nos esquecer que a pessoa idosa necessita de maior atenção e respeito, que tem toda uma história de vida.

Existem duas vertentes para quem chega nesta fase da vida: se entregar a esses pensamentos pessimistas e negativos em relação ao idoso, se entregar as dores e doenças típicas da idade, ou buscar viver estes anos, contribuir com os outros com sua experiência de vida. Conseguir olhar para atrás e ver que ainda não é o fim. Afinal, uma pessoa de 70 anos pode viver até 98 anos, quanto tempo mais vai viver? tem muito ainda para aproveitar. Quanto ao medo da morte, quem está livre desta possibilidade? Ser idoso não quer dizer mais próximo da morte, muitos jovens morrem também. Todos estamos sujeitos à morrer.

Muitos são os estudos relacionados ao idoso e ao processo de envelhecer, cada vez mais aumentam os profissionais da geriatria e da gerontologia. Gerontologia é a ciência que estuda o processo de envelhecimento humano de modo a atender às necessidades físicas, emocionais e sociais do idoso, que investiga as experiências de velhice e envelhecimento em diferentes contextos socioculturais e históricos. O número de idosos no mundo e, em especial, no Brasil, tendem a aumentar muito. Precisamos rever nosso modo de conceber o idoso. Pois, se nada interromper este processo, um dia chegaremos lá também e como queremos viver nossa velhice?

 

 

Referências:
 

BALLONE, G.; MOURA, E. Curso de Psicopatologia: Atenção e memória. Psiqweb. 2008. Disponível em <
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=201> Acesso em 16 nov. 2012.

Beck, J. Terapia cognitiva: teoria e prática.Porto Alegre: ArtMed, 2007.

 

CAVALINI, L.Inquérito sobre hipertensão arterial e décifit cognitivo em idosos de um serviço de geriatria. Rev. Bras. Epidemiologia. v. 6, n. 1, p. 7-17. 2003. Disponível em <
http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v6n1/03.pdf>. Acesso em 15 nov. 2012.

 

Davidoff, L. Introdução à psicologia. São Paulo: Makron Books, 2010

 

Diário do Grande ABc: página de saúde. Memória na terceira idade. 22 out. 2009. Disponível em <
http://www.dgabc.com.br/Columnists/Posts/24/2755/memoria-na-terceira-idade.aspx> Acesso em 15 nov. 2012.

 

 

ERIKSON, E. H. e ERIKSON, J. O ciclo da vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998

 

 

PEREIRA, R et. al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a qualidade de vida global de idosos.Rev. Psiquiatria RS. v. 28, n. 1, p. 27-38. 2006. Disponível em <
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-81082006000100005&script=sci_arttext>. Acesso em 15 nov 2012.

Portal Educação. Depressão na velhice tem ligação com o alto índice de colesterol. Publicado em 20 ago. 2012. Disponível em <http://www.portaleducacao.com.br/psicologia/noticias/41543/depressao-na-velhice-tem-ligacao-com-o-alto-indice-de-colesterol>. Acesso em 15 nov. 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Análise das expectativas do psicólogo recém-formado

 
Este é um artigo científico elaborado em parceria com estes meus colegas cujos nomes estão no artigo. O artigo científico foi publicado na Revista de Psicologia Encontro Vol. 14, Nº.21, ano 2011. Que está integrada ao SARE: Sistema Anhanguera de Revistas Eletrônicas
 
 
 
o Título é:
 
ANÁLISE DAS EXPECTATIVAS DO PSICÓLOGO RECÉM-FORMADO
 
Resumo
 
A Psicologia é uma ciência e uma profissão que continuamente está se atualizando, se diversificando e se adaptando cada vez mais a realidade do mercado de trabalho. Este trabalho tem como objetivo caracterizar essas expectativas. Foram participantes voluntários desta pesquisa, 20 psicólogos concluintes do curso de graduação no período entre dezembro de 2008 e dezembro de 2012. Foi utilizado um questionário com perguntas abertas e fechadas para que fosse feita umaanálise quantitativa e qualitativa dos dados coletados. As exigências do mercado de trabalho são percebidas agora como realidades para eles, não existe mais o "chão" da faculdade. A continuidade da formação foi considerada muito importante pela maioria. A Psicologia é uma profissão com inúmeras oportunidades, porém, pouco exploradas tanto pelas instituições como pelos propríos profissionais da área. Espera-se que essa pesquisa possa contribuir muito para a formação dos psicólogos e expectativas quanto à sua formação, sugerindo áreas potenciais de atuação dos mesmos.
 
Palavras-Chave: expectativa; profissão; Psicologia;inserção no mercado de trabalho; Psicólogos recém-formados
 
 
Para ler o artigo, acesse o link:  
 
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Da timidez a fobia social: Quero ficar só! Será que quer?




"Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! Grita a almo do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas"

Clarice Lispector
 



A timidez

A timidez. Quem nunca passou por um momento ou situação em que se sentiu travado, recuado, excluído, tímido? Seja para falar em público, seja para entrar numa roda de conversa entre colegas da escola ou do trabalho ou mesmo para falar com uma pessoa que te desperte um interesse especial? Pois bem, ter um comportamento tímido em algumas ocasiões é diferente de ser tímido na maior parte do tempo.


Uma pessoa tímida com certeza sofre por diversos motivos, principalmente por, muitas vezes, não se sentir aceito ou por medo de não ser aceito. O que ocorre, geralmente, é um sofrimento por antecipação, por causa de pensamentos negativos referentes a própria pessoa ou a própria imagem e sobre o que os outros irão pensar ou fazer. Não são raros os casos de pessoas que de fato já sofreram algum tipo de "invasão do seu espaço" e como consequência, teve um comportamento de se retrair, se defender do mundo se excluindo dele ou se enclausurando dentro de si. Segundo Nunes, Faraco e Vieira (2012), o retraimento social se refere a um grande grupo de manifestações comportamentais que, tem como elemento comum, um nível excessivo de controle psicológico e comportamental, ou seja, um excessivo autocontrole que chega ao ponto da pessoa pensar e sofrer muito para conseguir se interagir como as demais pessoas fazem. Inserir-se numa conversa, para uma pessoa retraída socialmente, exige um esforço tremendamente maior desta pessoa, comportamento este, que para a maioria das pessoas, é tão natural.


Para estes autores, há diferentes faces do retraimento social: inibição, timidez, retraimento social propriamente dito e isolamento social. Inibição é a predisposição natural de recuo, medo, esquiva ou ansiedade a uma resposta a situações novas ao indivíduo. Timidez é um tipo de inibição comportamental expressa em condição social particular inédita para o indivíduo. Retraimento social está relacionado ao comportamento de timidez e auto-isolamento em diferentes contextos e ao longo do desenvolvimento, independente se a pessoa está exposta a pessoas e situações novas ou não. Isolamento social, ao contrário do retraimento social, no qual o indivíduo se afasta do grupo por iniciativa própria, refere-se ao afastamento do grupo também, porém não por iniciativa do próprio indivíduo, mas por rejeição do grupo: preconceito, discriminação, bullying etc.


Para Winnicott (1975), a pessoa retraída, está sustentando a si mesmo de alguma forma, ou seja, a necessidade maior desta pessoa é de sentir-se sustentado, apoiado, acolhido. Antes de ser acolhido e sustentado pelo grupo social ao qual pertence, o indivíduo precisa sentir-se sustentado pelas pessoas mais importantes em sua vida, seus pais, sobretudo a mãe. Sentir-se sustentado é sentir-se seguro, sentir que alguem zela por você. Esta segurança propicia ao sujeito a capacidade de desenvolver a sua auto-confiança. A capacidade de se auto-sustentar nas diversas situações da vida. O retraimento, então, é algo que se forma, se desenvolve desde a infância, desde a fase de total dependência da mãe.


Na visão de Erikson (1998), A fase de desenvolvimento psicossocial denominada por ele: autonomia vs. vergonha, correspondente a fase anal freudiana, se inicia nesse período do desenvolvimento infantil: controle dos impulsos musculares, incluindo os esfíncteres. Nesta fase, a criança uma série de excitações para a exploração dos movimentos musculares, direcionando sua energia, então, a essas experiências ligadas à atividade exploratória e à conquista da autonomia. Contudo, nesta fase, também, que a criança percebe que existem as regras sociais ensinadas pelos pais, de forma que aprende a lidar com esta excitação a exploração e o controle desta vontade. O problema ocorre quando o adulto usa da sua autoridade para ensinar alguma regra social ou mesmo, na tentativa de ensinar algo que é um ganho para a criança para sua autonomia, como ir ao banheiro, e acaba, de certa forma, expondo a criança a vergonha e acaba fazendo isto com certa frequência, por consequência a criança desenvolve comportamentos de defesa a este sentimento de vergonha como o descaramento e a dissimulação ou, pode provocar o sentimento permanente de vergonha e de dúvida de suas capacidades e potencialidades. Ao invez de incentivar a autonomia, o adulto instiga o sentimento de vergonha ou comportamentos de defesa a este sentimento de vergonha.Porém, não necessita de uma quantidade exata de situações em que a criança é exposta a vergonha, dependendo da interpretação da criança e da crença que ela tem a partir desta percepção para si mesma, uma vez que ocorra o fato pode se o suficiente, assim como que para outras crianças, um número grande de situações não foi o suficiente para a criança se perceber desta forma. Tudo depende da absorvição e interpretação da criança sobre a situação e as crenças que desenvolve acerca desta e que pode modelar a criança daí para frente.


Para Jung (2005), todo ser humano pode ser caracterizado como sendo orientado para seu interior ou para seu exterior, daí os conceitos por ele elaborados e tão conhecidos: introversão e extroversão. Ninguém é totalmente introvertido e nem totalmente extrovertido. O indivíduo introvertido, concentra-se primeiramente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo a introspecção. Contudo, corre o risco de ficar exageradamente preso ao seu mundo interno, perdendo o contato com o ambiante externo, sobretudo, o ambiente social. Já o indivíduo extrovertido, se envolve com o mundo externo das coisas e das pessoas, com uma grande tendencia a socialização e a realidade a sua volta. Contudo, ao contrário do introvertido, o risco que corre é ode ficar alienado a seus próprios sentimentos e pensamentos, acabam até apoiando suas opiniões as dos outros ao invés de desenvolver as suas próprias opiniões. O ideal para o ser humano, obviamente é o equilíbrio entre as duas orientações para suas atitudes, lembrando que sempre à uma tendência a uma se sobrepor a outra.


 




A Fobia Social


"O ser humano, 'animal social', acaba tendo medo da própria sociedade" (Ballone, 2007)


Em sua publicação, Ballone (2007), faz uma comparação entre a "ansiedade social" e a "fobia social" propriamente dita. A ansiedade social, diz respeito a sintomas ansiosos: tonturas, sudorese, ruborização etc, diante de situações específicas. É um sofrimento, uma ansiedade antecipatória, no qual a pessoa alimenta um tipo de pensamento ou uma quantidade grande de pensamentos relacionados a situação específica causando e mantendo estes sintomas ansiosos. Já, a fobia social, é caracterizada pelo medo persistente de contatos sociais ou de atuações em público, por temer resultados embaraçosos, estes estímulos provocam uma resposta ansiosa quase imediata, juntamente como palpitação, rubor (rosto avermelhado), sudorese, falta de ar, dores de estômago, falta de apetite ou necessidade brusca de urinar ou evacuar, entre outros sintomas, em tal ponto que interferem na vida social do indivíduo. É muito mais intensa que a ansiedade social. A ansiedade social está relacionada ao sofrimento antecipatório, enquanto que a fobia social está relacionado a exposição ao estímulo social e os sintomas que se manifestam quase imediatamente.


Ainda há o indivíduo que possui o Transtorno de Personalidade por Evitação, aquele cuja personalidade é caracterizada pela evitação das situações sociais e e pela ansiedade social, porem, com maior constância e menor intensidade que no caso da fobia social.


Esses indivíduos, De modo geral, passam a evitar situações sociais que provocam respostas ansiosas desagradáveis e, por trás dessa evitação, surgirá uma sensação de alivio imediato, porém, juntamente com o sentimentos de culpa por não estar conseguindo enfrentar o problema eficientemente. Cada conduta de evitação reforça a fobia e promove sua manutenção, de tal forma que, não tratada, a Fobia Social tende a ser crônica e incapacitante.




Conclusão


Desde aquele que possui um comportamento tímido, ou retraimento social, ou aquele indivíduo retraído ou introvertido até aquele que sofre de fobia social ou ansiedade social há tratamento. Todos estes comportamentos similares e muitas vezes sinônimos iniciam a partir de pensamentos desfuncionais, ou seja, pensamentos embasados em percepções que o indivíduo tem da realidade e de si mesmo de forma negativa e pessimista. A maioria dessas pessoas sofrem por antecipação, por alimentarem estes pensamentos desfuncionais com outros pensamentos e nunca respondendo de forma positiva a estes pensamentos. Através do treino de habilidade sociais, com auxílio de um psicólogo, pode ser sanado ou até, definitivamente resolvido este problema com as situações de sociabilização. Porém, é importante diferenciar as pessoas que sofrem com um conflito interno que os leva a um comportamento de retraimento social das pessoas que literalmente travam diante de estímulos sociais, acompanhado de uma gama de sintomas ansioso, que é o caso da pessoa que sofre de fobia social. Independente de com qual dessas situações você se encaixe, se você acredita que precisa de ajuda para melhorar suas habilidade sociais, procure ajuda profissional de um psicólogo. Não deixe de viver a vida por medo da própria vida. Não deixe de ser o protagonista da sua vida para ser um expectador da sua própria vida. Os momentos vividos e passados não voltam jamais, mas o que pode ser feito é lutar para que os momentos presentes e futuros sejam melhores e mais aproveitados. Acredite em si mesmo e que você pode superar esses problemas, buscar ajuda é um primeiro passo que pode ser tornar toda uma trajetória de vitória sobre a timidez e até a fobia social.

 

 

Referências:


BALLONE, G. Ansiedade social. PsiqWeb, 2007. Disponível em <
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75>. Acesso em 20 set. 2012.


BALLONE, G. Carl Gustav Jung. PsiqWeb, 2005. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75>. Acesso em 20 set. 2012.

ERIKSON, E. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artmed, 1998

FRIEDMAN, H. Teorias da personalidade: da teoria clássica à pesquisa moderna. São Paulo: Prentice Hall, 2007.

NUNES, S.; FARACO, A.; VIEIRA, M. Correlatos e consequências do retraimento social na infância. Arquivos brasileiros de psicologia. v. 64, n. 1, Rio de Janeiro, 2012.

SCHULTZ, D. Teorias da personalidade. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2008.

WINNICOTT, D. O brincar e a realidade. São Paulo: Imago, 1975.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Birra: o que fazer?



 
 
"João tem 4 anos, é um garoto muito agitado, com um comportamento desorganizado e impulsivo. A família tem muita dificuldade em controlar o seu comportamento: o João nunca sossega, não se detém em nenhuma atividade, está sempre a saltar, a correr, desarruma tudo, só faz asneiras; parece que nem os ouve e às vezes só agarrando-o é que o conseguem deter." (QUEIROS et. al., 2003).
 
Quem nunca presenciou a cena de uma criança gritando, chorando ou até se esperniando por querer algo que lhe é recusado pelo adulto? Quem nunca presenciou uma cena em que a criança emite um comportamento muito conhecido chamado: BIRRA? Contudo, o que vem a ser a birra? É um comportamento genético? É traço imutável da personalidade da criança? É consequencia da relação com os pais? Ou, como muitos adultos declara: "é uma criança-problema"? Será que caracterizar a criança como sendo "a criança-problema", não está propiciando a criança desenvolver a crença que de fato ela é a criança-problema, internalizando isso e sendo de fato esta criança-problema, assumindo esta caracteristica como se fosse realmente uma característica sua?
 
Segundo a pesquisa de Queiros, muitas perturbações da criança pequena são, antes, perturbações da relação com o adulto, dada a sua dependência física e psíquica deste, e a influencia das perturbações da relação sobre o seu desenvolvimento. Ou seja, na maioria dos casos de problemas de comportamento em crianças pequenas, há uma perturbação na relação desta com as figuras parentais, cruadores, educadores e demais adultos que são referências para esta criança (QUEIROS, O. et. al. 2003).
 
Já segundo outra pesquisa ((BOLSONI-SILVA; PAIVA; BARBOSA, 2009), os problemas relacionados ao comportamento infantil de birra e agressividade está relacionado as habilidades sociais dos pais. A dificuldade de interação social,a partir de dificuldaes nesssas habilidades sociais são muito identificadas nas interações estabelecidas em geral, o que não é diferente no caso do relacionamento entre apis e filhos. Para estes autores, o comportamento socialmente habilidoso ocorre quando o indivíduo consegue expressar atitudes, sentimentos (positivos e negativos), opiniões e desejos, de maneira que possa respeitar a si próprio e aos outros, dessa forma possibilitando a resolução de problemas de forma imediata e diminuição de problemas futuros. Foi trabalhado nesta pesquisa,o conceito de Habilidades Sociais Educativas Parentais, que são as habilidades sociais aplicáveis às interações entre pais e filhos. Por outro lado, pessoas que tem dificuldade nas habilidades sociais, que podem ser tanto comportamento negligente como podem ser agressivos que a criança aprende a imitar.
 
Em algumas pesquisas levantadas pelos mesmos autores, levam a hipótese de que famílias de crianças com problemas de comportamento tem como características uma desorganização, mais problemas emocionais ou de comunicação e apresentam comportamentos e modelos "idesejáveis" para o desenvolvimento social e até cognitivo das crianças. Essas famílias, geralmente, tem uma dificuldade em disciplinar de forma consistente, há pouca interação positiva e uma supervisão insuficiente das atividades das crianças. É muito comum essas famílias "deixarem a criança a vontade" até que ela "passa dos limites" e a correção é uma bronca por impulso, gritos, tapas, castigos que acabam não tendo a função desejada pelos mesmos familiares, pois, muitas vezes, não tem sentido para a criança que não foi disciplinada ou corrigida no momento da ação e nem foi explicado a ela o motivo da correção e as consequencias. O que provavelmente vai acontecer é que ocomportamento irá se repetir, principalmente se essa criança se sente "esquecida" pelos familiares, pois seu comportamento "errado", de certa forma chamou a atenção de todos para ela.
 
Na visão winnicottiana (GOLOVATY, M. s.d.), os comportamentos tidos como tendências anti-sociais estão intimamente ligados à privação. Estão relacionados à falhas que ocorrem na relação interpessoal da criança com seus pais, relação que estava, num primeiro momento, sendo suficientemente boa e, por algum motivo, sofreu uma transformação repentina, uma ruptura ocorrida no perídodo de amadurecimento da criança no qual ela já tem uma noção do que aconteceu com ela. Para Winnicott, a tendência anti-social é, de fato, uma tentativa inconsciente da criança em comunicar esta falha ocorrida. Esta falha ambiental não precisa, necessariamente, ser grosseira, ela pode ser sutil e, muitas vezes, passa desapercebida por todos, desde uma mudança no humor da mãe pela chegada de um novo filho até o fato ta mãe ter que se ausentar por um período de tempo que a criança não estava habituada (começar a trabalhar, por exemplo). Essas falhas não são culpa dos pais, nem tampouco a criança. São fatos que ocorrem sem serem percebidos e que podem ou não desencadear uma tendência anti-social.
 
Na visão psicossocial do psicanalista Ericson (ERIKSON; ERIKSON, 1998), é importante para o desenvolvimento e amadurecimento do ego criar uma confiança de que o mundo é seguro, de que vale a pena viver, de que ele é desejado e amado. A confiança perante a vida e os outros é essencial para o desenvolvimento da tolerância a frustrações. A criança passa por frustrações necessárias ao seu desenvolvimento: não ter a mãe sempre presente, por exemplo, em um dado momento ela se ausenta.
De forma mais simples, famílias que transmitem maior segurança a criança e que tenha uma interação com habilidades sociais eficientes conseguem transmitir essas habilidades e esta segurança a criança potencializando, assim, seu desenvolvimento de forma positiva social, cognitiva e afetivamente.
 
 
A partir destes levantamentos, podemos refletir que: quando se trata de uma questão de comportamento da criança, se fala de todo o contexto familiar sempre. Pois estão intimamente relaiconados. Portanto, trabalha para melhorar ocomportamento de birra ou de agressão de uma criança, o ideal é trabalhar todo o contexto familiar, trabalhar a família em si. Pois, a birra da criança, nada mais é, que um sintoma da desorganização social e afetiva da família que está inserida. A criança é o reflexo da dinâmica familiar.
 
O primeiro passo na resolução do problema de comportamento da criança é a desmistificação do termo criança-problema, pois se este comportamento da criança é o reflexo, o sintoma, então a criança não é o problema, ela apenas reflete de forma mais visível um problema da própria dinâmica familiar. Sendo assim, trabalhar e modificar estes pensamentos negativos em relação a criança é o passo inicial. O segundo passo, é identificar e modificar os pensamentos e crenças nos quais esse problema da dinâmica familiar está fundamentado. Muitas vezes, o problema está exatamente nas habilidades sociais, que podem ser trabalhadas. A dificuldade está em estabelecer uma armonia, um equilíbrio entre o que a pessoa sente e o que ela expressa. Entre o que ela pensa e o que ela diz. Um trabalho voltado para o auto-conhecimento e conhecimento dos seus familiares é um passo positivo e, claro, sempre valorizando a criança, não mais como a criança-problema, mas como um ser em desenvolvimento, em contrução de sua personalidade e com grande potencial a ser desenvolvido e o que ela mais precisa para conseguir isso é que sua família, principalmente os pais, acreditem nela. Ela desenvolverá a capacidade de acreditar em si mesma a partir do fato de sentir que os pais acreditam nela.
 
Essa questão da birra da criança, dos comportamentos agressivos, dos problemas da dinâmica familiar e dificuldades nas habilidades sociais são fatores que podem ser trabalhados em psicoterapia, com auxílio de um profissional preparado. Um auxílio profissional não significa a incapacidade da família em lidar com o problema, mas, pelo contrário, é um sinal da preocupação da família e uma disposição em ajudar a mudar esta situação que gera sofriemento desnecessário a criança e a família que não consegue e não sabe lidar com esta situação de forma eficaz.
Concluo este texto com a seguinte afirmação: vale a pena acreditar no potencial positivo das crianças, principalmente dos nossos filhos!
 
Referências:
 
BOLOSI-SILVA, A.; PAIVA, M.; BARBOSA, C. Problemas de comportamento de crianças/adolescentes e dificuldades de pais/cuidadores: um estudo de caracterização. pSICOLOGIA cLÍNICA vol.21 no.1 Rio de Janeiro 2009. P 169-184. Disponível em: <
 
ERIKSON, E. H. e ERIKSON, J. O ciclo da vida completo. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1998
 
GOLOVATY, M. A tendência anti-social na teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott: Um apelo esperançoso. Psiquêvida. s.d. Disponível em: <
 
LEITE, W. O poder de acreditar em si mesmo. Blog Psicoweslei. 8 mai. 2012. Disponivel em: <
 
QUEIRÓS, O. et. al. O outro lado das birras: alterações de comportamento na 1ª infância. Análise Psicológica.vol.v.21 n.1 Lisboa jan. 2003. p 95-102.Disponível em: <

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Medo: Normal X Patológico





O Medo


"Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nos, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo."

(Carlos Drumond de Andrade)


O medo natural

O medo é uma função natural do ser humano. Se trata de uma reação que visa a necessidade básica de sobrevivência. Essa necessidade é uma das necessidades mais básicas do ser humano, segundo a teoria de Maslow da pirâmide das necessidades, está na base da pirâmide como uma das necessidades primordiais. A função natural do medo é transmitida como herança genética evolutiva aos descendentes da espécie, ou seja, é uma característica genética comum à espécie humana assim como à outras espécies. O medo permite ao ser humano a evitação do perigo, sendo, portanto, essencial para a aptidão.

Segundo a Psicologia Comportamental, a capacidade de vivenciar o medo, embora seja uma função inata, respostas de medo a certos objetos e situações são em grande parte adquiridas através da aprendizagem. Portanto, o medo pode ser algo pessoal, próprio do indivíduo, pode ser comum a uma grupo social ou cultura. O medo faz parte da história da humanidade e gerou inúmeras histórias e mitos, muitos deles vivos até hoje e outros mais recentes, mas que todos nós conhecemos e, para algumas pessoas, são riscos reias, como uma invasão extraterrestre, existência de fantasmas, o fim do mundo neste ano de 2012 como o medo do fim do mundo que foi um grande alarme em 1999, neste caso, pessoas até chegaram a se suicidar em grupos sob crenças religiosas relacionadas a este medo. O medo pode ser relacionado a uma dada cultura, como medo do saci ou de lobsomem, assim como na idade média era comum o medo de bruxas e da existência de monstros marinhos.

O medo pode estar também relacionado a um valor pessoal ou de um dado grupo, como a torcida de um time de futebol que tem medo do seu time perder o título ou o medo de perder o show do seu cantor predileto, ou ainda, de perder o último capítulo da novela. O medo pode ser de perder dinheiro ou herança, perder uma aposta ou perder o ônibus para o trabalho. Medos de situações que trazem consequências negativas que podem prejudicar o indivíduo de alguma forma. O medo é um mecanismo que nos ajuda a cumprirmos regras e normas para o bem comum, para o bem da sociedade, por exemplo: chegar cedo no trabalho para não levar advertência, medo de cometer um crime para não ser preso depois. Os medos estão muito relacionados aos valores individuais, medo, geralmente, de perder algo importante para o indivíduo.

O medo do desconhecido, principalmente na infância, é normal e faz parte do desenvolvimento humano. Quem, quando criança, não teve medo de monstros, fantasmas, algum filme assustador que até provocou pesadelo, alguma história ou som, mas que com o tempo aprendeu que não é real ou que não há necessidade de ter medo. Mesmo assim, há aqueles que tem medo de altura, não viajam de avião, mas depois de alguns voos, se acostuma e o medo se vai. Medo da responsabilidade atribuída a um novo cargo por uma promoção no emprego, mas que depois percebe que se acostuma e que até tem talento para exercer este novo cargo. O medo do desconhecido é bem simbolizado no Mito da Caverna de Platão:

"Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.
Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomaram por louco e inventor de mentiras."

O medo patológico

A priori, o medo é natural, porém, variações quantitativas podem fazer com que o medo ultrapasse os seus limites funcionais e adaptativos, dando origem a uma psicopatologia. Ou seja, quando o medo de algo passa a ser constante e passa a interferir no cotidiano da pessoa. Os pensamentos referentes ao desencadeante do medo passam a ser repetitivos quase que obsessivamente, passa a trazer um mau-estar ao indivíduo, quando emoções e pensamentos passam a trazer esse mau-estar estamos falando de uma patologia. O medo, segundo alguns autores, foi classificado em 6 fases: 1) Prudência; 2) Cautela; 3) Alarme; 4) Ansiedade; 5) Pânico (medo intenso); 6) Terror (medo intensíssimo). De acordo com a intensidade do medo, as reações físicas e emocionais também se intensificam como taquicardia, sudorese, tensão muscular, aumento da respiração, pois o medo, como visto antes é uma resposta a situação de perigo ou possível perigo. Quando o medo é constante, as reações emocionais e físicas também o são, causando extremo desconforto não só psíquico como físico e uma exaustão também e indisposição. Iremos refletir agora sobre as patologias mais conhecidas relacionadas ao medo: fobias; transtorno de pânico e estresse pós-traumático.

1. Fobia

São medos considerados desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, os chamados objetos ou situações fobígenas. Por exemplo: medo de entrar em elevador, ou medo de ratos, mesmo só da possibilidade de haver ratos, medo de falar em público etc. O indivíduo é capaz de perceber conscientemente que não há razão para tamanho medo diante do objeto ou situação, porém não é algo que se possa evitar. Causa uma grande transtorno, pois muitas vezes a pessoa não sabe como lidar com a situação e passa anos neste sofrimento até que venha procurar ajuda profissional ou, nem sequer imagina que isso seja uma patologia e que há tratamento. O preconceito ou o medo de admitir que tem um problema psicológico e que necessita de ajuda são os maiores inimigos de quem possui qualquer que seja a psicopatologia. Os transtornos fóbicos ansiosos são classificados como f40 no CID-10. E as fobias mais conhecidas são: as fobias específicas; fobias sociais e agorafobia.

Fobias específicas (F40.2)

São fobias relacionadas a situações altamente específicas como animais, elevadores, trovões, escuridão, viagem de avião, espaços fechados (claustrofobia), sangue, cuidados odontológico. O contato com o objeto ou situação específica pode desencadear um estado de pânico. Geralmente geram pensamentos excessivos em relação ao desencadeante do medo. A pessoa começa a pensar em evitar situações, pode ser prejudicado em relacionamentos, no emprego e em outros setores da vida por essas evitações ou pela dificuldade em se concentrar e trabalhar, já que esses pensamentos frequentes causam uma constante ansiedade e, por consequência, um cansaço psíquico e físico.

Fobia Social ou Antropofobia (F40.1)

É o medo de ser exposto a observação atenta de outras pessoas e que, por consequência, leva a evitar situações sociais. As fobias sociais graves podem ser acompanhadas de uma perda da auto-estima e de um medo de ser criticado. Esse transtorno difere do delírio paranóide ou mania de perseguição e, mesmo, da sensação de perseguição, pois no caso da fobia social o medo é de uma situação real. A antropofobia pode se manifestar através do rubor (rosto avermelhado), tremor das mãos, náuseas ou desejo urgente de urinar. Frequentemente este transtorno se associa a uma depressão e pensamentos negativos em relação a si mesmo, complexo de inferioridade e baixa auto-estima.

Agorafobia (F40.0)

Grupo relativamente bem definido de fobias relativas ao medo de deixar seu domicílio, medo de lojas, de multidões e de locais públicos, ou medo de viajar sozinho em trem, ônibus ou avião. A presença de um transtorno de pânico é freqüente no curso dos episódios atuais ou anteriores de agorafobia. Entre as características associadas, acham-se freqüentemente sintomas depressivos ou obsessivos, assim como fobias sociais.
2) Transtorno de Pânico (F41.1)

A principal característica do Transtorno de Pânico são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave, os chamados ataques de pânico. Não ocorrem exclusivamente diante de uma situação ou objeto, diferente da fobia, mas ocorrem em fatos imprevisíveis. Os sintomas, muito conhecidos aliás, são as reações físicas: taquicardia, dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas, sudorese fria, tremores, formigamentos (principalmente nos lábios e ponta dos dedos), náuseas, sensação da cabeça ficar leve. Também são comum os sintomas psicológicos: medo de enlouquecer,medo de perder o controle e, frequentemente, o medo de morrer, medo de ter uma parada cardíaca e medo de irrealidade. Os ataques normalmente duram alguns minutos e tendem a ocorrer com certa periodicidade variável. Este transtorno também pode estar associado a uma depressão.

3) Transtorno do Estresse pós-traumático (F43.1)

Este transtorno constitui uma resposta retardada ou protraída a uma situação ou evento estressante (de curta ou longa duração), de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos. Fatores predisponentes, tais como certos traços de personalidade (por exemplo compulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo neurótico, podem diminuir o limiar para a ocorrência da síndrome ou agravar sua evolução; tais fatores, contudo, não são necessários ou suficientes para explicar a ocorrência da síndrome. Os sintomas típicos incluem a revivescência repetida do evento traumático sob a forma de lembranças invasivas ("flashbacks"), de sonhos ou de pesadelos; ocorrem num contexto durável de "anestesia psíquica" e de embotamento emocional, de retraimento com relação aos outros, insensibilidade ao ambiente, anedonia, e de evitação de atividades ou de situações que possam despertar a lembrança do traumatismo. Os sintomas precedentes se acompanham habitualmente de uma hiperatividade neurovegetativa, com hipervigilância, estado de alerta e insônia, associadas freqüentemente a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida. O período que separa a ocorrência do traumatismo do transtorno pode variar de algumas semanas a alguns meses. A evolução é flutuante, mas se faz para a cura na maioria dos casos. Em uma pequena proporção de casos, o transtorno pode apresentar uma evolução crônica durante numerosos anos e levar a uma alteração duradoura da personalidade (F62.0).
Todo tipo de medo é passível de tratamento, desde um medo normal até o medo patológico. A psicoterapia sempre é grande aliada nesses tratamentos e muito importante, principalmente, para o cliente manter sua melhora e viver uma vida normal. Mesmos os medos não considerados patológicos podem ser trabalhado em psicoterapia, principalmente em crianças. O importante é, apesar dos medos que afligem, a pessoa não ter medo de procurar ajuda.



Referências
 
ANDRADE, C. D. O medo. Disponível em <
Brasil Escola. Mito da Caverna de Platão. Disponível em: <
CAMINHA, R et al. Psicoterapias cognitivo-comportamentais: teoria e prática. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.
 
CID
-10
: Classificação Estatística Internacional de Doenças e. Problemas Relacionados à Saúde. Disponível em <
 
DELGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.