O que você vê ou como você se vê ao se olhar no espelho?
Dentre todos os nossos sentidos: visão, paladar, audição, olfato etc. O que tem cada vez mais recebido maior valorização é a visão. O culto ao estímulo visual é algo tão comum hoje que as pessoas nem percebem que praticamente baseamos nossos pensamentos e crenças a partir do que percebemos através da visão. Como observamos isso? O culto a beleza e supervalorização da juventude, ou a crescente crença no que é belo ou dar maior valor aquilo que agrada a nossa visão, ou ao que culturalmente aprendemos ser belo hoje. Cada vez é mais crescente a hipervalorização de filmes com efeitos especiais que realmente estimulam nossa visão, assim como vídeo games e videoclipes. Mas, onde vamos podemos ver uma grande quantidade de estímulos visuais, aprendido por nossa cultura atual e que rege a vida muitas pessoas é a aparência, a moda, a supervalorização da juventude.
Qual imagem percebemos de nós mesmo? Como nos percebemos? Nossa imagem percebida é a mesma imagem real ou é a mesma que é percebida pelos outros?
Segundo Dalgalarrondo (2000), a imagem corporal ou esquema corporal é a representação mental que temos de nosso próprio corpo, ou seja, a imagem que acreditamos ter, como nos vemos no espelho, por exemplo. Essa percepção da própria imagem corporal é constituída e organizada com o passar do tempo a partir das percepções sensoriais naturais, das representações mentais (pensamentos) individuais, influências culturais e, principalmente, das crenças que temos a respeito dos mesmos. Porém, o que ocorre hoje é que reduzimos nossa imagem corporal baseando-nos nas modas ou "regras" culturais que privilegiam e valorizam apenas alguns padrões de imagens: um certo tipo de corpo, um certo tipo de cabelo, um certo tipo de roupa, um certo tipo de acessório e quem está fora destes padrões ou é discriminado, ou sente-se discriminado ou diferente. Pessoas tentam, por diversas formas, entrarem dentro destes padrões e acabam, muitas vezes, prejudicando a própria saúde, além de sentirem-se frustradas e até entram em depressão. Muitas vezes, são crianças e adolescentes considerados fora destes padrões que são vítimas de bulling nas escolas. Sabemos bem que o preconceito baseado na diferença da cor da pele ou formato dos olhos, cor de cabelo e olhos são velhos conhecidos da nossa história e nos acompanham até hoje.
A Psicologia da Gestal, no entanto, faz estudos que podem contestar nossa exacerbada confiança no sentido da visão. Davidoff (2010), faz uma breve explicação de algumas teorias desta clássica corrente da Psicologia, assim como muitos outros autores de introdução a Psicologia, como Bock (2010). Essas pesquisas levantaram certas propriedades a respeito da percepção, principalmente da percepção visual que, muitas vezes, é enganada e, consequentemente, engana sua representação mental, exemplo são as ilusões ou ilusionismos, o próprio funcionamento do cinema e das fitas VHS, onde uma série de imagens estáticas passadas em sequência a uma grande velocidade, da a impressão das imagens estáticas estarem em movimento, a miragens, obstáculos e imagens mal percebidas que, associados a pensamentos e crenças do indivíduo podem criar uma percepção distorcida do fato observado, o que engana o cérebro também. Enfim, o sentido da visão é facilmente enganado e, por consequência, engana o cérebro, no entanto, é o sentido no qual depositamos maior credibilidade e valorização em nossa cultura hoje.
Freud (1905), nos mostra que somos seres movidos pelo desejo, sobretudo, o desejo sexual. A sexualidade que nos acompanha desde a infância e é parte essencial da imagem que contraímos de nos mesmos, incluindo a imagem corporal, afinal, o corpo é a primeira coisa que se é percebida nós, na maioria das vezes. Existe um desejo que nos impulsiona a querer chamar a atenção do outro, a ser "atraente" e a satisfação própria, do nosso ego. Enfim, Esse desejo por ser atraente, por ter a imagem corporal perfeita e dentro dos conformes propostos pela sociedade em que vivemos podem causar uma série de transtornos, conflitos e até patologias. Dentre as patologias mais conhecidas cujo um dos sintomas é a distorção da percepção da própria imagem é a anorexia.
A anorexia nervosa (F50.0) é um transtorno caracterizado por perda de peso intencional, induzida e mantida pelo paciente. A pessoa com esse transtorno tem uma "obsessão" por emagrecer e utiliza diversos métodos para isso. A alegação da pessoa é de que está "gorda", mesmo que esteja excessivamente magra, já desnutrida e com marcas dos ossos na pele já aparecendo, não conseguem se enxergar magras frente ao espelho, chega a ser como uma alucinação visual, uma distorção grave da percepção de si mesma e da própria imagem corporal, transtorno muito comum em modelos e que constantemente aparece na mídia.
A percepção é a capacidade do indivíduo de vincular as sensações a outros aspectos da existência como pensamento e comportamento (MARTINS; VEZZÁL, 2008). A percepção pode ser de um estimulo novo ou de de um estímulo já conhecido, se já é conhecido o estímulo então ela já é associado ao sentimento e ao pensamento conhecido. Por exemplo, a pessoa que se percebe feia ou fora dos padrões da moda, quando se percebe dessa forma, já associa esse estímulo aos pensamentos e sentimentos negativos que, por sua vez, alimentam essa percepção, que enquanto estiver relacionada a pensamentos e crenças desfuncionais, causará sentimentos negativos e a percepção continuará distorcida e negativa. Dependendo da pessoa, o tratamento pode ser simples ou complexo, sendo necessário um trabalho multidisciplinar, como no caso da anorexia que precisa de um trabalho em conjunto do psiquiatra, psicólogo, nutricionista etc. Contudo, muitas pessoas, mesmo sem transtornos psíquicos, tem uma percepção distorcida da sua imagem corporal, se sentindo feio, gordo demais, baixo demais, magro demais, que nenhuma roupa ou penteado lhe cai bem, o use sente inferior. Nesses casos é necessário ser feito um trabalho para melhorar a auto-estima da pessoa e respostas aos pensamentos desfuncionais, ou negativos que a pessoa tem referente a sua própria imagem ou um trabalho de adaptação e aceitação da sua condição atual, em casos como pessoas vítimas de queimaduras graves que tiveram partes do corpo deformadas ou pessoas que sofreram amputação. É um trabalho que necessita de dedicação do profissional da saúde e do paciente em todos os casos.
Quem, por motivo que seja, tem uma percepção negativa ou se sente inferiorizado ou "feio" e até tem sentimentos e pensamentos depressivos em relação a sua imagem corporal é importante procurar um psicólogo, a psicoterapia é importantíssima para ajudar o indivíduo a melhorar sua relação consigo mesmo e o com o mundo em si.
Referências:
Beck, J. Terapia cognitiva: teoria e prática.Porto Alegre: ArtMed, 2007.
Bock, A. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2010
CID
-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e. Problemas Relacionados à Saúde. Disponível em <
http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerClassificacoes&idZClassificacoes=29>. Acesso em 14 jul. 2012.
Davidoff, L. Introdução à psicologia. São Paulo: Makron Books, 2010
DELGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000
FREUD
, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 119-231
MARTINS, E; VEZZÁL, F. Sensação, percepção e propriocepção. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, ano III, nº 15, jan/mar 2008. Disponível em <.







