sábado, 14 de julho de 2012

A percepção da imagem corporal: percepção saudável e disfuncional


O que você vê ou como você se vê ao se olhar no espelho?

Dentre todos os nossos sentidos: visão, paladar, audição, olfato etc. O que tem cada vez mais recebido maior valorização é a visão. O culto ao estímulo visual é algo tão comum hoje que as pessoas nem percebem que praticamente baseamos nossos pensamentos e crenças a partir do que percebemos através da visão. Como observamos isso? O culto a beleza e supervalorização da juventude, ou a crescente crença no que é belo ou dar maior valor aquilo que agrada a nossa visão, ou ao que culturalmente aprendemos ser belo hoje. Cada vez é mais crescente a hipervalorização de filmes com efeitos especiais que realmente estimulam nossa visão, assim como vídeo games e videoclipes. Mas, onde vamos podemos ver uma grande quantidade de estímulos visuais, aprendido por nossa cultura atual e que rege a vida muitas pessoas é a aparência, a moda, a supervalorização da juventude.

Qual imagem percebemos de nós mesmo? Como nos percebemos? Nossa imagem percebida é a mesma imagem real ou é a mesma que é percebida pelos outros?

Segundo Dalgalarrondo (2000), a imagem corporal ou esquema corporal é a representação mental que temos de nosso próprio corpo, ou seja, a imagem que acreditamos ter, como nos vemos no espelho, por exemplo. Essa percepção da própria imagem corporal é constituída e organizada com o passar do tempo a partir das percepções sensoriais naturais, das representações mentais (pensamentos) individuais, influências culturais e, principalmente, das crenças que temos a respeito dos mesmos. Porém, o que ocorre hoje é que reduzimos nossa imagem corporal baseando-nos nas modas ou "regras" culturais que privilegiam e valorizam apenas alguns padrões de imagens: um certo tipo de corpo, um certo tipo de cabelo, um certo tipo de roupa, um certo tipo de acessório e quem está fora destes padrões ou é discriminado, ou sente-se discriminado ou diferente. Pessoas tentam, por diversas formas, entrarem dentro destes padrões e acabam, muitas vezes, prejudicando a própria saúde, além de sentirem-se frustradas e até entram em depressão. Muitas vezes, são crianças e adolescentes considerados fora destes padrões que são vítimas de bulling nas escolas. Sabemos bem que o preconceito baseado na diferença da cor da pele ou formato dos olhos, cor de cabelo e olhos são velhos conhecidos da nossa história e nos acompanham até hoje.


A Psicologia da Gestal, no entanto, faz estudos que podem contestar nossa exacerbada confiança no sentido da visão. Davidoff (2010), faz uma breve explicação de algumas teorias desta clássica corrente da Psicologia, assim como muitos outros autores de introdução a Psicologia, como Bock (2010). Essas pesquisas levantaram certas propriedades a respeito da percepção, principalmente da percepção visual que, muitas vezes, é enganada e, consequentemente, engana sua representação mental, exemplo são as ilusões ou ilusionismos, o próprio funcionamento do cinema e das fitas VHS, onde uma série de imagens estáticas passadas em sequência a uma grande velocidade, da a impressão das imagens estáticas estarem em movimento, a miragens, obstáculos e imagens mal percebidas que, associados a pensamentos e crenças do indivíduo podem criar uma percepção distorcida do fato observado, o que engana o cérebro também. Enfim, o sentido da visão é facilmente enganado e, por consequência, engana o cérebro, no entanto, é o sentido no qual depositamos maior credibilidade e valorização em nossa cultura hoje.

Freud (1905), nos mostra que somos seres movidos pelo desejo, sobretudo, o desejo sexual. A sexualidade que nos acompanha desde a infância e é parte essencial da imagem que contraímos de nos mesmos, incluindo a imagem corporal, afinal, o corpo é a primeira coisa que se é percebida nós, na maioria das vezes. Existe um desejo que nos impulsiona a querer chamar a atenção do outro, a ser "atraente" e a satisfação própria, do nosso ego. Enfim, Esse desejo por ser atraente, por ter a imagem corporal perfeita e dentro dos conformes propostos pela sociedade em que vivemos podem causar uma série de transtornos, conflitos e até patologias. Dentre as patologias mais conhecidas cujo um dos sintomas é a distorção da percepção da própria imagem é a anorexia.


A anorexia nervosa (F50.0) é um transtorno caracterizado por perda de peso intencional, induzida e mantida pelo paciente. A pessoa com esse transtorno tem uma "obsessão" por emagrecer e utiliza diversos métodos para isso. A alegação da pessoa é de que está "gorda", mesmo que esteja excessivamente magra, já desnutrida e com marcas dos ossos na pele já aparecendo, não conseguem se enxergar magras frente ao espelho, chega a ser como uma alucinação visual, uma distorção grave da percepção de si mesma e da própria imagem corporal, transtorno muito comum em modelos e que constantemente aparece na mídia.




Há também casos de pessoa com esquizofrenia com delírios e alucinações referentes a imagem corporal, de há uma força externa manipulando seu corpo ou que há alguma alteração bizarra no formato de seu corpo, os mesmos delírios podem ser frequentes em pessoas com delírios causados por substâncias químicas (drogas). Pessoas com Transtorno Obsessivo-compulsivo (famoso TOC) podem perceber seu corpo sujo ou contaminado constantemente, mesmo após esforço excessivo em limpá-lo. A pessoa que tem depressão é comum sentir seu corpo lento, pesado fonte de sofrimento e até uma imagem de seu corpo como sendo feio. Outro fenômeno comum em pessoas com membros amputados é o "membro fantasma", após a cirugia de amputação ainda sente seu membro como se ele estivesse no mesmo lugar, em alguns casos a pessoa pode até sentir dor intensa no membro ausente.

A percepção é a capacidade do indivíduo de vincular as sensações a outros aspectos da existência como pensamento e comportamento (MARTINS; VEZZÁL, 2008). A percepção pode ser de um estimulo novo ou de de um estímulo já conhecido, se já é conhecido o estímulo então ela já é associado ao sentimento e ao pensamento conhecido. Por exemplo, a pessoa que se percebe feia ou fora dos padrões da moda, quando se percebe dessa forma, já associa esse estímulo aos pensamentos e sentimentos negativos que, por sua vez, alimentam essa percepção, que enquanto estiver relacionada a pensamentos e crenças desfuncionais, causará sentimentos negativos e a percepção continuará distorcida e negativa. Dependendo da pessoa, o tratamento pode ser simples ou complexo, sendo necessário um trabalho multidisciplinar, como no caso da anorexia que precisa de um trabalho em conjunto do psiquiatra, psicólogo, nutricionista etc. Contudo, muitas pessoas, mesmo sem transtornos psíquicos, tem uma percepção distorcida da sua imagem corporal, se sentindo feio, gordo demais, baixo demais, magro demais, que nenhuma roupa ou penteado lhe cai bem, o use sente inferior. Nesses casos é necessário ser feito um trabalho para melhorar a auto-estima da pessoa e respostas aos pensamentos desfuncionais, ou negativos que a pessoa tem referente a sua própria imagem ou um trabalho de adaptação e aceitação da sua condição atual, em casos como pessoas vítimas de queimaduras graves que tiveram partes do corpo deformadas ou pessoas que sofreram amputação. É um trabalho que necessita de dedicação do profissional da saúde e do paciente em todos os casos.

Quem, por motivo que seja, tem uma percepção negativa ou se sente inferiorizado ou "feio" e até tem sentimentos e pensamentos depressivos em relação a sua imagem corporal é importante procurar um psicólogo, a psicoterapia é importantíssima para ajudar o indivíduo a melhorar sua relação consigo mesmo e o com o mundo em si.


Referências:
 
Beck, J. Terapia cognitiva: teoria e prática.Porto Alegre: ArtMed, 2007.

Bock, A. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2010

CID

-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e. Problemas Relacionados à Saúde. Disponível em <


Davidoff, L. Introdução à psicologia. São Paulo: Makron Books, 2010

DELGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000

FREUD

, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 119-231
 
MARTINS, E; VEZZÁL, F. Sensação, percepção e propriocepção. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, ano III, nº 15, jan/mar 2008. Disponível em <.

sábado, 7 de julho de 2012

Internet aproxima ou afasta as pessoas?




Uma vez ouvi o seguinte relato: "meus filhos vivem brigando entre si, porém, outro dia quando cheguei em casa e entrei no quarto deles vi um no computador e outro com meu notebook na cama, ambos no mesmo grupo na internet conversando com amigos e entre si e se dando super bem, o datelhe é que eles quase não se falam pessoalmente e estavam no mesmo quarto naquele momento", pois é, quem mais já viu alguma cena assim? A partir desse pequeno relato podemos começar a reflexão: a internet aproxima ou afasta as pessoas? Ajudam pessoas se comunicar ou torna as pessoas mais distantes e com maior dificuldade em se relacionar pessoalmente?

Em seu texto, Zimmer (2008), faz a seguinte afirmação: "A comunicação digital é uma nova forma de comunicação que quebra com a normalidade da comunicação social". Até antes da internet a comunicação social tem avançado cada vez mais, mas com esse novo recurso, ela deu um salto e tem se atualizado a cada dia de forma mais rápida do que muitos grupos sociais podem acompanhar. através da internet as pessoas, mesmo à distâncias quilométricas podem se comunicar como se estivesse a uma rua de distância. Se comunicam com voz, vídeo, textos, troca de mensagens em tempo real, divulgam idéias, compram, vendem, conhecem novas pessoas, se associam a grupos, encontram parceiros para relacionamentos afetivos, opinam, ouvem música, assistem filmes, vídeos diversos, entre muitas outras coisas de naturezas diversas, que podem ser para o bem próprio e comum, como para prejudicar a si mesmo e aos outros também.


Segundo Moran (1997), "a internet está explodindo como a mídia mais promissora desde a implantação da televisão". Essa frase ele disse no texto que publicou em 1997, estamos em 2012, muito se avançou de lá para cá quando se fala em comunicação digital. Este autor, relata a importância do recurso virtual na educação a distância e até presencial. E de fato, o recurso virtual tem sido muito utilizado na educação: cursos on-line, apostilas on-line, educação à distância, estudos via e-mail, msn e facebook. Hoje uma rede de ensino superior oferece vários recursos para estudo a distância e até tem sido feito uma bom investimento na divulgação de cursos nesta modalidade, inclusive aqueles incluindo a graduação e a pós-graduação sendo realizadas ao mesmo tempo. Porém, será que o fato de não haver um contato frequente com o professor ou os colegas de uma sala de aula não ocasiona uma certa perda de experiência e trocas que podem não ocorrer num curso on-line, onde o contato maior é apenas com textos? Numa aula presencial há muito da experiência pessoal do professor que sempre ilustra e exemplifica a aula como um complemento essencial para acontecer essa troca, essa aprendizagem.

A Autora Donnamaria (2008), No seu estudo sobre o vínculo virtual, faz uma reflexão do uso da palavra "virtual" como termo oposto ao "real", em sua pesquisa diz que a origem da palavra virtual é do latim medieval virtualis, que é uma distorção da palavra virtus que significa existir em potência, sendo assim, propõe outras formas de se referir ao termo relacionamento virtual X relacionamento real. Ela propõe utilizar termos como relações on-line e off-line, virtuais ou presenciais ou, em condição virtual ou e condição face a face. Ou seja, usar o meio virtual para se relacionar não é visto, segundo esta autora, como algo oposto ao real ou como algo "anormal", mas como parte do processo de adaptação do ser humano as novas tecnologias. Este é o caminho que estamos seguindo. Há, de fato, uma grande quantidade de pessoas que ainda olham com estranheza os relacionamentos virtuais, principalmente quando se fala num relacionamento amoroso, uma paquera ou até um namoro propriamente dito onde os parceiros só se conhecem via internet, nunca tiveram a oportunidade de se relacionarem face a face, termo que a autora propõe.


Hoje, cada vez é mais comum os relacionamentos afetivos neste contexto virtual. Ou mesmo, relacionamentos que iniciaram virtualmente e que evoluíram para um relacionamento face a face. Mais uma vez podemos refletir sobre até que ponto um relacionamento virtual é saudável ou até mesmo seguro. Ainda há muitos pensamentos do tipo: "todo relacionamento virtual pode é falso ou perigoso", realmente ainda existem riscos, mentiras, "trotes" e até casos graves de estupro e assassinato que começou com um relacionamento virtual e culminou num encontro com resultado ruim e até ocasiões de estupro e/ou morte. Porém, o pensamento do tipo generalizado também não é saudável. Viver sempre inseguro ou com um pensamento negativo em relação a algo considerado novo é uma barreira que pode ser prejudicial a própria pessoa. A generalização pode impedir a pessoa de experimentar as facilidades dos recursos virtuais.

Donnamaria (2008), ainda traz em sua pesquisa a controvérsia entre autores sobre o uso de nicknames (apelidos em inglês). Este recurso é usado como uma forma de anonimato e, ao mesmo tempo, de defesa nos dois sentidos, defesa da sua identidade real contra pessoas mal intencionadas e defesa do seu verdadeiro eu. Para uns autores autores é uma forma de brincar de ser mais de um, sem que implique uma existência de "multiplos eus", outros, porém, identificam uma possibilidade de traços de transtorno de múltiplas personalidades. E, claro, há o fato das pessoas que realmente são "mal intencionadas", que usam esses recursos para prejudicar os outros. Muitos utilizam dos perfis para brincarem ou para acrescentarem algo que gostaria de ter, isso, claro, excluindo aqueles mal intencionados. É muito comum alguem acrescentar algo a mais em seu perfil para se tornar mais atraente, principalmente quando se fala de sites de relacionamentos afetivos.

Em sua conclusão, a autora levanta que nos vínculos amorosos, a internet se caracteriza como condição a partir do qual o vínculo é construído e isso ocorre por etapas que vão da identificação de valores um do outro e de desejos que condizem e passam pela confirmação dessas identificações no encontro face a face como sendo reais e não fantasias (pensamento e insegurança comum na maioria dos casos)


Ainda, o recurso virtual é muito utilizado tanto por empresas quanto por candidatos a novos empregos. É um recurso prático e cada vez mais acessível. Alguns sites são muito populares como o da Catho. Numa pesquisa, a Catho declara que em 2003, mais de 45 mil empresas diferentes anunciaram pelo site, em 2004 possui mais de 100 mil anúncios de currículos (CASE, 2007).

Os sites de anúncio de produtos diversos também tem crescido muito, assim como as "fraudes" recorrentes do mesmo recurso.

A questão de até que ponto é saudável ou não os vínculos amorosos via internet, ou até que ponto é saudável o tempo que uma pessoa fica "on-line" pode ser relativo e motivo para muitas discussões. Esse texto tem como objetivo levar a uma reflexão e não defender uma idéia. O importante é que cada um saiba pensar no que é melhor para si, fazer uma análise pessoal e ver até onde é bom ou não. Pensamentos negativistas ou generalistas podem inibir om acesso das pessoas a um recurso muito importante e facilitador do nosso tempo, bem como pensamentos de onipotência do tipo: "comigo isso não ocorre", assim como pensamentos imprudentes podem ocasionar risco a pessoa por pessoas que utilizam esses recursos para fazer mal. O importante é saber o que é melhor para si mesmo e saber respeitar, alem do outro, a si mesmo. Vale a pena acreditar no ser humano e nos recursos por ele criado, porém sempre é melhor saber bem o que faz e saber utilizar o melhor recurso do ser humano: o pensamento, para saber o que é melhor e até que ponto é bom ou até onde o excesso pode ser prejudicial.





Referências:



 
CASE, CASE, T. Como conseguir emprego no Brasil do século XXI. Rio de Janeiro: Editado por Catho Online Ltda, 2007. Disponível em <

DONNAMARIA, C. Do vínculo virtual ao conjugal: um estudo psicológico.Dissertação (Mestrado em Psicologia). Pontífice Universidade Católica de Campinas. Campinas 2008. Disponível em: <

MORAN, J. Como utilizar a Internet na educação. Ci. Inf. [online]. 1997, vol.26, n.2 Disponível em: <

ZIMMER, V. O que é comunicação? Blog: Comunicação Digital. 06 ago. 2008. Disponível em <