"Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! Grita a almo do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas"
Clarice Lispector
A timidez
A timidez. Quem nunca passou por um momento ou situação em que se sentiu travado, recuado, excluído, tímido? Seja para falar em público, seja para entrar numa roda de conversa entre colegas da escola ou do trabalho ou mesmo para falar com uma pessoa que te desperte um interesse especial? Pois bem, ter um comportamento tímido em algumas ocasiões é diferente de ser tímido na maior parte do tempo.
Uma pessoa tímida com certeza sofre por diversos motivos, principalmente por, muitas vezes, não se sentir aceito ou por medo de não ser aceito. O que ocorre, geralmente, é um sofrimento por antecipação, por causa de pensamentos negativos referentes a própria pessoa ou a própria imagem e sobre o que os outros irão pensar ou fazer. Não são raros os casos de pessoas que de fato já sofreram algum tipo de "invasão do seu espaço" e como consequência, teve um comportamento de se retrair, se defender do mundo se excluindo dele ou se enclausurando dentro de si. Segundo Nunes, Faraco e Vieira (2012), o retraimento social se refere a um grande grupo de manifestações comportamentais que, tem como elemento comum, um nível excessivo de controle psicológico e comportamental, ou seja, um excessivo autocontrole que chega ao ponto da pessoa pensar e sofrer muito para conseguir se interagir como as demais pessoas fazem. Inserir-se numa conversa, para uma pessoa retraída socialmente, exige um esforço tremendamente maior desta pessoa, comportamento este, que para a maioria das pessoas, é tão natural.
Para estes autores, há diferentes faces do retraimento social: inibição, timidez, retraimento social propriamente dito e isolamento social. Inibição é a predisposição natural de recuo, medo, esquiva ou ansiedade a uma resposta a situações novas ao indivíduo. Timidez é um tipo de inibição comportamental expressa em condição social particular inédita para o indivíduo. Retraimento social está relacionado ao comportamento de timidez e auto-isolamento em diferentes contextos e ao longo do desenvolvimento, independente se a pessoa está exposta a pessoas e situações novas ou não. Isolamento social, ao contrário do retraimento social, no qual o indivíduo se afasta do grupo por iniciativa própria, refere-se ao afastamento do grupo também, porém não por iniciativa do próprio indivíduo, mas por rejeição do grupo: preconceito, discriminação, bullying etc.
Para Winnicott (1975), a pessoa retraída, está sustentando a si mesmo de alguma forma, ou seja, a necessidade maior desta pessoa é de sentir-se sustentado, apoiado, acolhido. Antes de ser acolhido e sustentado pelo grupo social ao qual pertence, o indivíduo precisa sentir-se sustentado pelas pessoas mais importantes em sua vida, seus pais, sobretudo a mãe. Sentir-se sustentado é sentir-se seguro, sentir que alguem zela por você. Esta segurança propicia ao sujeito a capacidade de desenvolver a sua auto-confiança. A capacidade de se auto-sustentar nas diversas situações da vida. O retraimento, então, é algo que se forma, se desenvolve desde a infância, desde a fase de total dependência da mãe.
Na visão de Erikson (1998), A fase de desenvolvimento psicossocial denominada por ele: autonomia vs. vergonha, correspondente a fase anal freudiana, se inicia nesse período do desenvolvimento infantil: controle dos impulsos musculares, incluindo os esfíncteres. Nesta fase, a criança uma série de excitações para a exploração dos movimentos musculares, direcionando sua energia, então, a essas experiências ligadas à atividade exploratória e à conquista da autonomia. Contudo, nesta fase, também, que a criança percebe que existem as regras sociais ensinadas pelos pais, de forma que aprende a lidar com esta excitação a exploração e o controle desta vontade. O problema ocorre quando o adulto usa da sua autoridade para ensinar alguma regra social ou mesmo, na tentativa de ensinar algo que é um ganho para a criança para sua autonomia, como ir ao banheiro, e acaba, de certa forma, expondo a criança a vergonha e acaba fazendo isto com certa frequência, por consequência a criança desenvolve comportamentos de defesa a este sentimento de vergonha como o descaramento e a dissimulação ou, pode provocar o sentimento permanente de vergonha e de dúvida de suas capacidades e potencialidades. Ao invez de incentivar a autonomia, o adulto instiga o sentimento de vergonha ou comportamentos de defesa a este sentimento de vergonha.Porém, não necessita de uma quantidade exata de situações em que a criança é exposta a vergonha, dependendo da interpretação da criança e da crença que ela tem a partir desta percepção para si mesma, uma vez que ocorra o fato pode se o suficiente, assim como que para outras crianças, um número grande de situações não foi o suficiente para a criança se perceber desta forma. Tudo depende da absorvição e interpretação da criança sobre a situação e as crenças que desenvolve acerca desta e que pode modelar a criança daí para frente.
Para Jung (2005), todo ser humano pode ser caracterizado como sendo orientado para seu interior ou para seu exterior, daí os conceitos por ele elaborados e tão conhecidos: introversão e extroversão. Ninguém é totalmente introvertido e nem totalmente extrovertido. O indivíduo introvertido, concentra-se primeiramente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo a introspecção. Contudo, corre o risco de ficar exageradamente preso ao seu mundo interno, perdendo o contato com o ambiante externo, sobretudo, o ambiente social. Já o indivíduo extrovertido, se envolve com o mundo externo das coisas e das pessoas, com uma grande tendencia a socialização e a realidade a sua volta. Contudo, ao contrário do introvertido, o risco que corre é ode ficar alienado a seus próprios sentimentos e pensamentos, acabam até apoiando suas opiniões as dos outros ao invés de desenvolver as suas próprias opiniões. O ideal para o ser humano, obviamente é o equilíbrio entre as duas orientações para suas atitudes, lembrando que sempre à uma tendência a uma se sobrepor a outra.
A Fobia Social
"O ser humano, 'animal social', acaba tendo medo da própria sociedade" (Ballone, 2007)
Em sua publicação, Ballone (2007), faz uma comparação entre a "ansiedade social" e a "fobia social" propriamente dita. A ansiedade social, diz respeito a sintomas ansiosos: tonturas, sudorese, ruborização etc, diante de situações específicas. É um sofrimento, uma ansiedade antecipatória, no qual a pessoa alimenta um tipo de pensamento ou uma quantidade grande de pensamentos relacionados a situação específica causando e mantendo estes sintomas ansiosos. Já, a fobia social, é caracterizada pelo medo persistente de contatos sociais ou de atuações em público, por temer resultados embaraçosos, estes estímulos provocam uma resposta ansiosa quase imediata, juntamente como palpitação, rubor (rosto avermelhado), sudorese, falta de ar, dores de estômago, falta de apetite ou necessidade brusca de urinar ou evacuar, entre outros sintomas, em tal ponto que interferem na vida social do indivíduo. É muito mais intensa que a ansiedade social. A ansiedade social está relacionada ao sofrimento antecipatório, enquanto que a fobia social está relacionado a exposição ao estímulo social e os sintomas que se manifestam quase imediatamente.
Ainda há o indivíduo que possui o Transtorno de Personalidade por Evitação, aquele cuja personalidade é caracterizada pela evitação das situações sociais e e pela ansiedade social, porem, com maior constância e menor intensidade que no caso da fobia social.
Esses indivíduos, De modo geral, passam a evitar situações sociais que provocam respostas ansiosas desagradáveis e, por trás dessa evitação, surgirá uma sensação de alivio imediato, porém, juntamente com o sentimentos de culpa por não estar conseguindo enfrentar o problema eficientemente. Cada conduta de evitação reforça a fobia e promove sua manutenção, de tal forma que, não tratada, a Fobia Social tende a ser crônica e incapacitante.
Conclusão
Desde aquele que possui um comportamento tímido, ou retraimento social, ou aquele indivíduo retraído ou introvertido até aquele que sofre de fobia social ou ansiedade social há tratamento. Todos estes comportamentos similares e muitas vezes sinônimos iniciam a partir de pensamentos desfuncionais, ou seja, pensamentos embasados em percepções que o indivíduo tem da realidade e de si mesmo de forma negativa e pessimista. A maioria dessas pessoas sofrem por antecipação, por alimentarem estes pensamentos desfuncionais com outros pensamentos e nunca respondendo de forma positiva a estes pensamentos. Através do treino de habilidade sociais, com auxílio de um psicólogo, pode ser sanado ou até, definitivamente resolvido este problema com as situações de sociabilização. Porém, é importante diferenciar as pessoas que sofrem com um conflito interno que os leva a um comportamento de retraimento social das pessoas que literalmente travam diante de estímulos sociais, acompanhado de uma gama de sintomas ansioso, que é o caso da pessoa que sofre de fobia social. Independente de com qual dessas situações você se encaixe, se você acredita que precisa de ajuda para melhorar suas habilidade sociais, procure ajuda profissional de um psicólogo. Não deixe de viver a vida por medo da própria vida. Não deixe de ser o protagonista da sua vida para ser um expectador da sua própria vida. Os momentos vividos e passados não voltam jamais, mas o que pode ser feito é lutar para que os momentos presentes e futuros sejam melhores e mais aproveitados. Acredite em si mesmo e que você pode superar esses problemas, buscar ajuda é um primeiro passo que pode ser tornar toda uma trajetória de vitória sobre a timidez e até a fobia social.
Referências:
BALLONE, G. Ansiedade social. PsiqWeb, 2007. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75>. Acesso em 20 set. 2012.
BALLONE, G. Carl Gustav Jung. PsiqWeb, 2005. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=75>. Acesso em 20 set. 2012.
ERIKSON, E. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artmed, 1998
FRIEDMAN, H. Teorias da personalidade: da teoria clássica à pesquisa moderna. São Paulo: Prentice Hall, 2007.
NUNES, S.; FARACO, A.; VIEIRA, M. Correlatos e consequências do retraimento social na infância. Arquivos brasileiros de psicologia. v. 64, n. 1, Rio de Janeiro, 2012.
SCHULTZ, D. Teorias da personalidade. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2008.
WINNICOTT, D. O brincar e a realidade. São Paulo: Imago, 1975.



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