sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Birra: o que fazer?



 
 
"João tem 4 anos, é um garoto muito agitado, com um comportamento desorganizado e impulsivo. A família tem muita dificuldade em controlar o seu comportamento: o João nunca sossega, não se detém em nenhuma atividade, está sempre a saltar, a correr, desarruma tudo, só faz asneiras; parece que nem os ouve e às vezes só agarrando-o é que o conseguem deter." (QUEIROS et. al., 2003).
 
Quem nunca presenciou a cena de uma criança gritando, chorando ou até se esperniando por querer algo que lhe é recusado pelo adulto? Quem nunca presenciou uma cena em que a criança emite um comportamento muito conhecido chamado: BIRRA? Contudo, o que vem a ser a birra? É um comportamento genético? É traço imutável da personalidade da criança? É consequencia da relação com os pais? Ou, como muitos adultos declara: "é uma criança-problema"? Será que caracterizar a criança como sendo "a criança-problema", não está propiciando a criança desenvolver a crença que de fato ela é a criança-problema, internalizando isso e sendo de fato esta criança-problema, assumindo esta caracteristica como se fosse realmente uma característica sua?
 
Segundo a pesquisa de Queiros, muitas perturbações da criança pequena são, antes, perturbações da relação com o adulto, dada a sua dependência física e psíquica deste, e a influencia das perturbações da relação sobre o seu desenvolvimento. Ou seja, na maioria dos casos de problemas de comportamento em crianças pequenas, há uma perturbação na relação desta com as figuras parentais, cruadores, educadores e demais adultos que são referências para esta criança (QUEIROS, O. et. al. 2003).
 
Já segundo outra pesquisa ((BOLSONI-SILVA; PAIVA; BARBOSA, 2009), os problemas relacionados ao comportamento infantil de birra e agressividade está relacionado as habilidades sociais dos pais. A dificuldade de interação social,a partir de dificuldaes nesssas habilidades sociais são muito identificadas nas interações estabelecidas em geral, o que não é diferente no caso do relacionamento entre apis e filhos. Para estes autores, o comportamento socialmente habilidoso ocorre quando o indivíduo consegue expressar atitudes, sentimentos (positivos e negativos), opiniões e desejos, de maneira que possa respeitar a si próprio e aos outros, dessa forma possibilitando a resolução de problemas de forma imediata e diminuição de problemas futuros. Foi trabalhado nesta pesquisa,o conceito de Habilidades Sociais Educativas Parentais, que são as habilidades sociais aplicáveis às interações entre pais e filhos. Por outro lado, pessoas que tem dificuldade nas habilidades sociais, que podem ser tanto comportamento negligente como podem ser agressivos que a criança aprende a imitar.
 
Em algumas pesquisas levantadas pelos mesmos autores, levam a hipótese de que famílias de crianças com problemas de comportamento tem como características uma desorganização, mais problemas emocionais ou de comunicação e apresentam comportamentos e modelos "idesejáveis" para o desenvolvimento social e até cognitivo das crianças. Essas famílias, geralmente, tem uma dificuldade em disciplinar de forma consistente, há pouca interação positiva e uma supervisão insuficiente das atividades das crianças. É muito comum essas famílias "deixarem a criança a vontade" até que ela "passa dos limites" e a correção é uma bronca por impulso, gritos, tapas, castigos que acabam não tendo a função desejada pelos mesmos familiares, pois, muitas vezes, não tem sentido para a criança que não foi disciplinada ou corrigida no momento da ação e nem foi explicado a ela o motivo da correção e as consequencias. O que provavelmente vai acontecer é que ocomportamento irá se repetir, principalmente se essa criança se sente "esquecida" pelos familiares, pois seu comportamento "errado", de certa forma chamou a atenção de todos para ela.
 
Na visão winnicottiana (GOLOVATY, M. s.d.), os comportamentos tidos como tendências anti-sociais estão intimamente ligados à privação. Estão relacionados à falhas que ocorrem na relação interpessoal da criança com seus pais, relação que estava, num primeiro momento, sendo suficientemente boa e, por algum motivo, sofreu uma transformação repentina, uma ruptura ocorrida no perídodo de amadurecimento da criança no qual ela já tem uma noção do que aconteceu com ela. Para Winnicott, a tendência anti-social é, de fato, uma tentativa inconsciente da criança em comunicar esta falha ocorrida. Esta falha ambiental não precisa, necessariamente, ser grosseira, ela pode ser sutil e, muitas vezes, passa desapercebida por todos, desde uma mudança no humor da mãe pela chegada de um novo filho até o fato ta mãe ter que se ausentar por um período de tempo que a criança não estava habituada (começar a trabalhar, por exemplo). Essas falhas não são culpa dos pais, nem tampouco a criança. São fatos que ocorrem sem serem percebidos e que podem ou não desencadear uma tendência anti-social.
 
Na visão psicossocial do psicanalista Ericson (ERIKSON; ERIKSON, 1998), é importante para o desenvolvimento e amadurecimento do ego criar uma confiança de que o mundo é seguro, de que vale a pena viver, de que ele é desejado e amado. A confiança perante a vida e os outros é essencial para o desenvolvimento da tolerância a frustrações. A criança passa por frustrações necessárias ao seu desenvolvimento: não ter a mãe sempre presente, por exemplo, em um dado momento ela se ausenta.
De forma mais simples, famílias que transmitem maior segurança a criança e que tenha uma interação com habilidades sociais eficientes conseguem transmitir essas habilidades e esta segurança a criança potencializando, assim, seu desenvolvimento de forma positiva social, cognitiva e afetivamente.
 
 
A partir destes levantamentos, podemos refletir que: quando se trata de uma questão de comportamento da criança, se fala de todo o contexto familiar sempre. Pois estão intimamente relaiconados. Portanto, trabalha para melhorar ocomportamento de birra ou de agressão de uma criança, o ideal é trabalhar todo o contexto familiar, trabalhar a família em si. Pois, a birra da criança, nada mais é, que um sintoma da desorganização social e afetiva da família que está inserida. A criança é o reflexo da dinâmica familiar.
 
O primeiro passo na resolução do problema de comportamento da criança é a desmistificação do termo criança-problema, pois se este comportamento da criança é o reflexo, o sintoma, então a criança não é o problema, ela apenas reflete de forma mais visível um problema da própria dinâmica familiar. Sendo assim, trabalhar e modificar estes pensamentos negativos em relação a criança é o passo inicial. O segundo passo, é identificar e modificar os pensamentos e crenças nos quais esse problema da dinâmica familiar está fundamentado. Muitas vezes, o problema está exatamente nas habilidades sociais, que podem ser trabalhadas. A dificuldade está em estabelecer uma armonia, um equilíbrio entre o que a pessoa sente e o que ela expressa. Entre o que ela pensa e o que ela diz. Um trabalho voltado para o auto-conhecimento e conhecimento dos seus familiares é um passo positivo e, claro, sempre valorizando a criança, não mais como a criança-problema, mas como um ser em desenvolvimento, em contrução de sua personalidade e com grande potencial a ser desenvolvido e o que ela mais precisa para conseguir isso é que sua família, principalmente os pais, acreditem nela. Ela desenvolverá a capacidade de acreditar em si mesma a partir do fato de sentir que os pais acreditam nela.
 
Essa questão da birra da criança, dos comportamentos agressivos, dos problemas da dinâmica familiar e dificuldades nas habilidades sociais são fatores que podem ser trabalhados em psicoterapia, com auxílio de um profissional preparado. Um auxílio profissional não significa a incapacidade da família em lidar com o problema, mas, pelo contrário, é um sinal da preocupação da família e uma disposição em ajudar a mudar esta situação que gera sofriemento desnecessário a criança e a família que não consegue e não sabe lidar com esta situação de forma eficaz.
Concluo este texto com a seguinte afirmação: vale a pena acreditar no potencial positivo das crianças, principalmente dos nossos filhos!
 
Referências:
 
BOLOSI-SILVA, A.; PAIVA, M.; BARBOSA, C. Problemas de comportamento de crianças/adolescentes e dificuldades de pais/cuidadores: um estudo de caracterização. pSICOLOGIA cLÍNICA vol.21 no.1 Rio de Janeiro 2009. P 169-184. Disponível em: <
 
ERIKSON, E. H. e ERIKSON, J. O ciclo da vida completo. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1998
 
GOLOVATY, M. A tendência anti-social na teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott: Um apelo esperançoso. Psiquêvida. s.d. Disponível em: <
 
LEITE, W. O poder de acreditar em si mesmo. Blog Psicoweslei. 8 mai. 2012. Disponivel em: <
 
QUEIRÓS, O. et. al. O outro lado das birras: alterações de comportamento na 1ª infância. Análise Psicológica.vol.v.21 n.1 Lisboa jan. 2003. p 95-102.Disponível em: <

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Medo: Normal X Patológico





O Medo


"Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nos, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo."

(Carlos Drumond de Andrade)


O medo natural

O medo é uma função natural do ser humano. Se trata de uma reação que visa a necessidade básica de sobrevivência. Essa necessidade é uma das necessidades mais básicas do ser humano, segundo a teoria de Maslow da pirâmide das necessidades, está na base da pirâmide como uma das necessidades primordiais. A função natural do medo é transmitida como herança genética evolutiva aos descendentes da espécie, ou seja, é uma característica genética comum à espécie humana assim como à outras espécies. O medo permite ao ser humano a evitação do perigo, sendo, portanto, essencial para a aptidão.

Segundo a Psicologia Comportamental, a capacidade de vivenciar o medo, embora seja uma função inata, respostas de medo a certos objetos e situações são em grande parte adquiridas através da aprendizagem. Portanto, o medo pode ser algo pessoal, próprio do indivíduo, pode ser comum a uma grupo social ou cultura. O medo faz parte da história da humanidade e gerou inúmeras histórias e mitos, muitos deles vivos até hoje e outros mais recentes, mas que todos nós conhecemos e, para algumas pessoas, são riscos reias, como uma invasão extraterrestre, existência de fantasmas, o fim do mundo neste ano de 2012 como o medo do fim do mundo que foi um grande alarme em 1999, neste caso, pessoas até chegaram a se suicidar em grupos sob crenças religiosas relacionadas a este medo. O medo pode ser relacionado a uma dada cultura, como medo do saci ou de lobsomem, assim como na idade média era comum o medo de bruxas e da existência de monstros marinhos.

O medo pode estar também relacionado a um valor pessoal ou de um dado grupo, como a torcida de um time de futebol que tem medo do seu time perder o título ou o medo de perder o show do seu cantor predileto, ou ainda, de perder o último capítulo da novela. O medo pode ser de perder dinheiro ou herança, perder uma aposta ou perder o ônibus para o trabalho. Medos de situações que trazem consequências negativas que podem prejudicar o indivíduo de alguma forma. O medo é um mecanismo que nos ajuda a cumprirmos regras e normas para o bem comum, para o bem da sociedade, por exemplo: chegar cedo no trabalho para não levar advertência, medo de cometer um crime para não ser preso depois. Os medos estão muito relacionados aos valores individuais, medo, geralmente, de perder algo importante para o indivíduo.

O medo do desconhecido, principalmente na infância, é normal e faz parte do desenvolvimento humano. Quem, quando criança, não teve medo de monstros, fantasmas, algum filme assustador que até provocou pesadelo, alguma história ou som, mas que com o tempo aprendeu que não é real ou que não há necessidade de ter medo. Mesmo assim, há aqueles que tem medo de altura, não viajam de avião, mas depois de alguns voos, se acostuma e o medo se vai. Medo da responsabilidade atribuída a um novo cargo por uma promoção no emprego, mas que depois percebe que se acostuma e que até tem talento para exercer este novo cargo. O medo do desconhecido é bem simbolizado no Mito da Caverna de Platão:

"Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.
Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomaram por louco e inventor de mentiras."

O medo patológico

A priori, o medo é natural, porém, variações quantitativas podem fazer com que o medo ultrapasse os seus limites funcionais e adaptativos, dando origem a uma psicopatologia. Ou seja, quando o medo de algo passa a ser constante e passa a interferir no cotidiano da pessoa. Os pensamentos referentes ao desencadeante do medo passam a ser repetitivos quase que obsessivamente, passa a trazer um mau-estar ao indivíduo, quando emoções e pensamentos passam a trazer esse mau-estar estamos falando de uma patologia. O medo, segundo alguns autores, foi classificado em 6 fases: 1) Prudência; 2) Cautela; 3) Alarme; 4) Ansiedade; 5) Pânico (medo intenso); 6) Terror (medo intensíssimo). De acordo com a intensidade do medo, as reações físicas e emocionais também se intensificam como taquicardia, sudorese, tensão muscular, aumento da respiração, pois o medo, como visto antes é uma resposta a situação de perigo ou possível perigo. Quando o medo é constante, as reações emocionais e físicas também o são, causando extremo desconforto não só psíquico como físico e uma exaustão também e indisposição. Iremos refletir agora sobre as patologias mais conhecidas relacionadas ao medo: fobias; transtorno de pânico e estresse pós-traumático.

1. Fobia

São medos considerados desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, os chamados objetos ou situações fobígenas. Por exemplo: medo de entrar em elevador, ou medo de ratos, mesmo só da possibilidade de haver ratos, medo de falar em público etc. O indivíduo é capaz de perceber conscientemente que não há razão para tamanho medo diante do objeto ou situação, porém não é algo que se possa evitar. Causa uma grande transtorno, pois muitas vezes a pessoa não sabe como lidar com a situação e passa anos neste sofrimento até que venha procurar ajuda profissional ou, nem sequer imagina que isso seja uma patologia e que há tratamento. O preconceito ou o medo de admitir que tem um problema psicológico e que necessita de ajuda são os maiores inimigos de quem possui qualquer que seja a psicopatologia. Os transtornos fóbicos ansiosos são classificados como f40 no CID-10. E as fobias mais conhecidas são: as fobias específicas; fobias sociais e agorafobia.

Fobias específicas (F40.2)

São fobias relacionadas a situações altamente específicas como animais, elevadores, trovões, escuridão, viagem de avião, espaços fechados (claustrofobia), sangue, cuidados odontológico. O contato com o objeto ou situação específica pode desencadear um estado de pânico. Geralmente geram pensamentos excessivos em relação ao desencadeante do medo. A pessoa começa a pensar em evitar situações, pode ser prejudicado em relacionamentos, no emprego e em outros setores da vida por essas evitações ou pela dificuldade em se concentrar e trabalhar, já que esses pensamentos frequentes causam uma constante ansiedade e, por consequência, um cansaço psíquico e físico.

Fobia Social ou Antropofobia (F40.1)

É o medo de ser exposto a observação atenta de outras pessoas e que, por consequência, leva a evitar situações sociais. As fobias sociais graves podem ser acompanhadas de uma perda da auto-estima e de um medo de ser criticado. Esse transtorno difere do delírio paranóide ou mania de perseguição e, mesmo, da sensação de perseguição, pois no caso da fobia social o medo é de uma situação real. A antropofobia pode se manifestar através do rubor (rosto avermelhado), tremor das mãos, náuseas ou desejo urgente de urinar. Frequentemente este transtorno se associa a uma depressão e pensamentos negativos em relação a si mesmo, complexo de inferioridade e baixa auto-estima.

Agorafobia (F40.0)

Grupo relativamente bem definido de fobias relativas ao medo de deixar seu domicílio, medo de lojas, de multidões e de locais públicos, ou medo de viajar sozinho em trem, ônibus ou avião. A presença de um transtorno de pânico é freqüente no curso dos episódios atuais ou anteriores de agorafobia. Entre as características associadas, acham-se freqüentemente sintomas depressivos ou obsessivos, assim como fobias sociais.
2) Transtorno de Pânico (F41.1)

A principal característica do Transtorno de Pânico são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave, os chamados ataques de pânico. Não ocorrem exclusivamente diante de uma situação ou objeto, diferente da fobia, mas ocorrem em fatos imprevisíveis. Os sintomas, muito conhecidos aliás, são as reações físicas: taquicardia, dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas, sudorese fria, tremores, formigamentos (principalmente nos lábios e ponta dos dedos), náuseas, sensação da cabeça ficar leve. Também são comum os sintomas psicológicos: medo de enlouquecer,medo de perder o controle e, frequentemente, o medo de morrer, medo de ter uma parada cardíaca e medo de irrealidade. Os ataques normalmente duram alguns minutos e tendem a ocorrer com certa periodicidade variável. Este transtorno também pode estar associado a uma depressão.

3) Transtorno do Estresse pós-traumático (F43.1)

Este transtorno constitui uma resposta retardada ou protraída a uma situação ou evento estressante (de curta ou longa duração), de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos. Fatores predisponentes, tais como certos traços de personalidade (por exemplo compulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo neurótico, podem diminuir o limiar para a ocorrência da síndrome ou agravar sua evolução; tais fatores, contudo, não são necessários ou suficientes para explicar a ocorrência da síndrome. Os sintomas típicos incluem a revivescência repetida do evento traumático sob a forma de lembranças invasivas ("flashbacks"), de sonhos ou de pesadelos; ocorrem num contexto durável de "anestesia psíquica" e de embotamento emocional, de retraimento com relação aos outros, insensibilidade ao ambiente, anedonia, e de evitação de atividades ou de situações que possam despertar a lembrança do traumatismo. Os sintomas precedentes se acompanham habitualmente de uma hiperatividade neurovegetativa, com hipervigilância, estado de alerta e insônia, associadas freqüentemente a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida. O período que separa a ocorrência do traumatismo do transtorno pode variar de algumas semanas a alguns meses. A evolução é flutuante, mas se faz para a cura na maioria dos casos. Em uma pequena proporção de casos, o transtorno pode apresentar uma evolução crônica durante numerosos anos e levar a uma alteração duradoura da personalidade (F62.0).
Todo tipo de medo é passível de tratamento, desde um medo normal até o medo patológico. A psicoterapia sempre é grande aliada nesses tratamentos e muito importante, principalmente, para o cliente manter sua melhora e viver uma vida normal. Mesmos os medos não considerados patológicos podem ser trabalhado em psicoterapia, principalmente em crianças. O importante é, apesar dos medos que afligem, a pessoa não ter medo de procurar ajuda.



Referências
 
ANDRADE, C. D. O medo. Disponível em <
Brasil Escola. Mito da Caverna de Platão. Disponível em: <
CAMINHA, R et al. Psicoterapias cognitivo-comportamentais: teoria e prática. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.
 
CID
-10
: Classificação Estatística Internacional de Doenças e. Problemas Relacionados à Saúde. Disponível em <
 
DELGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O perdoar e o sentimento de culpa


"Dois monges cuidavam do jardim do templo. Um deles estava podando um roseiral quando, num momento de descuido, os espinhos rasgaram a manga de seu hábito e feriram seu braço, fazendo-o sentir muita dor. O monge, então, olhou para o roseiral e disse:

_Eu te perdoo.

Algum tempo depois, o segundo monge também se aproximou do roseiral e feriu o braço, o que o levou a sentir muita dor. Olhando para as rosas, ele disse:

_Não há nada a perdoar.

Ao voltarem para o templo, os dois monges perceberam que ambos tinham ferimentos semelhantes. Ao conversarem sobre o que havia acontecido, um começou a questionar a atitude do outro. Como não conseguiram chegar a uma conclusão sobre qual deles tinha agido de maneira certa, decidiram contar o episódio ao abade do templo e pedir sua opinião.

_ Você foi arrogante, disse o abade ao primeiro monge _ E você agiu certo, disse ao segundo monge.

O primeiro monge ficou surpreso e questionou o abade.

O abade respondeu:

_Devemos perdoar sempre, desde que exista algo para perdoar. O roseiral é um ser inanimado, que não se move por vontade própria. Ele não feriu você deliberadamente, nem poderia. Você é que se descuidou e se feriu no roseiral. A dizer que o perdoava, você atribuiu a ele uma culpa que ele não tem. Com isso, você ignorou sua responsabilidade como ser consciente que é e ainda usou o perdão como demonstração de superioridade. Isso é arrogância."


 

Atribuir a culpa a alguem ou em alguma situação que seja nossa própria é algo comum a muitas pessoas, que fazem isso, na maioria das vezes, sem nem perceber. Admitir os próprios erros, pedir perdão ou perdoar alguem é algo muito difícil e que denota maturidade, alem de ser bom para a saúde... Bom para a saúde?


A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Questionamentos a essa definição a parte, se saúde é o bem-estar fisico-mental-social, o perdão é saúde: pois alivia a mente e melhora as relações sociais, por consequencia, sensações como angústia e ráiva presentes no corpo são aliviadas. Esse texto pretende refletir sobre o perdão e a culpa sob dois aspectos: a capacidade de perdoar e a culpa com suas consequências.


 

A capacidade de Perdoar

 

O conto ilustra bem as faces do perdão: perdão como ato consciente em relação a outra pessoa que consientemente fez algo que prejudicasse o peimeiro, ou seja, se perdoa quem, de fato, tem culpa por algo que fez. E perdão como ato de arrogância, quando atribuímos culpa a algo ou alguem que não tem, porem, nossa percepção da situação nos leva a interpretar e a depositar esta culpa a pessoa ou situação que não tem.

Consideramos que para que haja perdão, é necessário um fato cujo autor é perdoado, ou seja, há uma culpa, um sujeito que prejudicou, machucou, magoou outra pessoa. Perdoar é reconhecer a culpa do outro, porém, compreender que este sujeito, independente de admitir a culpa ou não, merece ou deve ser perdoado. Perdoar, mais do que favorecer o outro, é favorecer a si mesmo. Como se favorecer se eu perdoo o outro? Não perdoar é muito próximo do sentimento de mágoa, rancor, ódio, raiva, sentimentos negativos que trazem sensação incômoda ao indivíduo. Pode até "limitar" o individuo rancoroso, que acaba, muitas vezes, evitando um grupo ou situação por causa de alguem que não consegue perdoar, ou ainda a provocar uma situação exatamente por haver no local alguem por quem sente rancor. Esses sentimentos e pensamentos trazem desconforto não só ao corpo, como também a mente e às relações sociais do indivíduo. Ou seja, não conseguir perdoar, não é bom para a saúde. A maioria das religiões, mesmo com tanta diversidade, consideram o perdão como importante para o bem-estar do indivíduo, o bem-estar da alma, do grupo etc. Um exemplo é o conto budista que refletimos, outro exemplo é a passagem bíblica: "Quando São Pedro pergunta a Jesus: 'Quanta vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?' Jesus respondeu-lhe: 'Não digo até sete, mas até setenta e sete vezes' (Mt 18, 21s) que significa perdoar sempre.


A capacidade de se auto-perdoar, de compreender a si mesmo e aceitar a si mesmo e os próprios defeitos também é tarefa difícil

Para Rogers (1987), Aceitar-se a si mesmo é um pré-requisito para uma aceitação mais fácil e genuína dos outros. Para conseguir perdoar o outro, é necessário aprender a perdoar a si mesmo, reconhecer os próprios defeitos e limitações. Compreender que somos humanos, passíveis de erros, mas que podemos aprender com estes mesmos erros e seguir em frente com nossa vida. Como há dificuldade em compreendermos a importância de perdoar a si mesmo e ao outro, como forma de diminuir sentimentos e pensamentos negativos.

 


A culpa e suas consequências

 

Segundo a visão da Psicologia Comportamental (GUILHARDI,2002), a condição essencial para os comportamentos e sentimentos genericamente chamados de sentimentos de culpa é a classificação de determinado comportamento emitido como sendo "inadequado", ou concordar com quem assim o classifica, ou seja reconhecer essa resposta comportamental como pertencente a uma mesma classe de respostas que foram punidas anteriormente e o reconhecimento que tal comportamento foi emitido pelo sujeito.

Na visão psicanalista (1996), o sentimento de culpa está ligado a "castração", ou medo de perder o "falos", que ocorre na fase fálica proposta por Freud, durante o Complexo de Édipo. O Complexo de Édipo é um conflito vivido por todos nós no desenvolvimento da nossa personalidade, isso ocorre na fase fálica, segundo Freud (1996), esse conflito consiste no desejo que o menino ou menina em relação a figura parental do sexo oposto ao seu e a rivalidade com a do mesmo sexo ao mesmo tempo, a impossibilidade de possuir o seu objeto de desejo e o Complexo de Castração, no qual, segundo Freud (1996), as crianças acreditam que todas as outras possuem pênis e a menina, percebendo que não possui, sente-se castrada e culpa a mãe e se aproxima do pai, levando efetivamente ao Complexo de Édipo, nesse caso, a menina sente inveja do pênis do menino. Já o menino possui o medo da castração, ao perceber que a menina não possui o pênis, sente medo de também ser castrado pelo pai, por descobrir seu desejo por sua mãe. O sentimento de culpa começa a surgir por causa da rivalidade e o ódio reprimido, por ser inconcebível odiar a mãe ou o pai, dependendo o caso.


O sentimento de culpa é muito presente em todos nós. Independente da explicação, a culpa está relacionada a regra moral, ao considerado "certo" ou padrão na sociedade e a um fato ou ação que "fere" esta moral ou regra. Ou seja, a culpa é consequencia de um ato considerado errado perante a sociedade ou considerado errado segundo os valores internalizados peo indivíduo. A culpa faz parte do ser humano. O problema está na forma de lidar com esta culpa: se perdoar, continuar se culpando, incapacidade de reconhecer a culpa, culpar os outros etc.



Muitos buscam psicoterapia hoje porque tem uma dificuldade muito grande em se perdoar, se aceitar tal como é, com baixa auto-estima entre outros sentimentosm e pensamentos negativos relacionados a si mesmos e que precisam de auxílio para melhorar os significados e pensamentos em relação a si mesmo. Como anda seu relacionamento consigo mesmo? Anda brigando muito ? cobrando muito? Se perdoar é uma tarefa difícil, como já dito, é uma tarefa difícil, mas com ajuda de uma psicoterapia, é superável.

Há aquelas pessoas com dificuldade em reconhecer culpa, pessoas mais egocêntricas, ou seja, centradas em si mesmas com certo grau de infantilidade, pois o egocentrismo é típico da infância. É mais fácil culpar os outros pelos próprios erros. Acabamos atribuindo uma culpa que não é da outra pessoa ou da situação, como no conto relatado na introdução este texto. A psicoterapia também auxilia as pessoas com essa dificuldade em reconhecerem o outro, enxergarem o outro, perceberem o outro e se responsabilisar por suas próprias culpas. Porém, existem aqueles que, por algum trantorno, tem uma extrema dificuldade em reconhecer sua culpa ou em admitir que prejudicou alguem para conquistar algue que deseja. E ainda aqueles que não conseguem, de fato, sentirem culpa, que é o caso de alguns transtornos de personalidade, como o transtorno de personaloidade anti-social (o psicopata). Ainda existem aqueles que por causa da psicose ou deficiência intelectual não conseguem compreender a diferença do certo e errado, do socialmente aceito e do socialmente repudiado.



 

"Um casal, recém casados, mudou-se para um bairro muito tranquilo.

Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:

- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal!

Provavelmente está precisando de um sabão novo. Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

O marido observou calado.

Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:

- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.

Passado um mês a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis brancos, alvissimamente brancos, sendo estendidos, e empolgada foi dizer ao marido:

- Veja ! Ela aprendeu a lavar as roupas, será que a outra vizinha ensinou !? Porque , não fui eu que a ensinei.

O marido calmamente respondeu:

- Não, é que hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!"


O que muitas vezes está deturbada não é a cena observada, mas nossos olhos, nossa percepção está embaçada, obstruída. Mudar os sentidos e significados das situações em nossas vidas, o que pensamos a respeito dos outros e de nós mesmos, nossa expectativa em relação ao mundo. Tudo depende do pensamento que temos em relação a tudo isso. Que pensamento você tem a respeito de você mesmo?


Referências:


A BÍBLIA DE JERUSALEM: tradução na língua de hoje. São Paulo: Editora Paulus, 2002


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