quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A BRINCADEIRA SIMBÓLICA NA ESCOLA: É CERTO OU ERRADO O BRINCAR NA ESCOLA?


Resumo
O presente trabalho trata da questão do brincar na escola, mais especificamente a brincadeira simbólica através da revisão de literatura de autores importantes da pedagogia e da psicologia como Benjamin, Vygotsky, Piaget e Winnicott. A proposta é mostrar a importância da brincadeira simbólica para o aprendizado da criança de forma geral e em diversas áreas do conhecimento como da linguagem, do raciocínio lógico-matemático e da psicomotricidade, como também é importante para o desenvolvimento de sua identidade e personalidade, além da importância para a comunicação da criança com o meio social.
 


 

 

Desde o nascimento a criança está inserida no mundo social e já interage com este mundo de diversas formas, entre eles, o brincar. A brincadeira é uma atividade social e cultural e pressupõe um aprendizado. A brincadeira só é possível quando os envolvidos forem capazes de trocar sinais vinculados a uma mensagem, isso quando não estiver brincando sozinha, mas mesmo assim, ela imita o que vê no mundo social (BOMTEMPO, 1999).

Barbosa (2012) em seu trabalho ressalta a importância da brincadeira para o aprendizado e desenvolvimento da personalidade do indivíduo na infância.

Para Benjamim (1984), é através do brincar que a criança se encontra com o mundo e o percebe como ele é e dele recebe elementos importantes para sua vida, desde hábitos até fatores determinantes da cultura de seu tempo. É através do brincar que a criança expressa o que não consegue expressar por palavras, inclusive suas dificuldades. O autor também ressalta a importância da repetição para a criança ao postular a “LEI DA REPETIÇÃO”, que, segundo ele, é a essência da brincadeira. É evidente que a criança gosta muito de repetir a mesma brincadeira com frequência. A criança tende a repetir aquilo que lhe dá prazer e que o remete a questões importantes na organização da sua personalidade e do seu aprendizado, quando a criança repete, ela está também ressignificando as associações acerca do brinquedo ou da dinâmica da brincadeira, assim como os traumas e uma tentativa a uma situação original, a segurança, ou seja, a criança tem uma compulsão a repetição da brincadeira e isso é essencial para o brincar e para seu desenvolvimento.

O brincar é algo tão espontâneo, natural e próprio da criança que não haveria como entender sua vida sem brinquedo, que está tão ligada a história da humanidade que desde as mais remotas eras produziam-se e utilizavam-se brinquedos para as crianças e alguns dos brinquedos mais populares hoje como a bola, de 6500 anos, no Japão atrás ou a boneca, que existem desde a época do Egito Antigo são datados. Os brinquedos surgiram com o desenvolvimento da sociedade e sempre foram ferramentas usadas pelo homem em sua relação com o mundo a seu redor (MUSEU DO BRINQUEDO).

Para Vygotsky (1984), O jogo traz oportunidade para o preenchimento de necessidades irrealizáveis e também a possibilidade para exercitar-se no domínio do simbolismo. Quando a criança é pequena, o jogo é o objeto que determina sua ação. Na medida em que cresce, a criança impõe ao objeto um significado. O exercício do simbolismo ocorre justamente quando o significado fica em primeiro plano. Do ponto de desenvolvimento da criança, a brincadeira traz vantagens sociais, cognitivas e afetivas.

Piaget (1946) estrutura o jogo em três categorias: o jogo de exercício, o jogo simbólico e o jogo de regra. Destes, será focado o jogo simbólico. No primeiro, o objetivo é exercitar a função em si, ou seja, as brincadeiras repetitivas: colocar os brinquedos dentro do pote e despejar, depois colocar novamente o brinquedo no pote, ou bater um brinquedo na porta e repetir a mesma atividade várias vezes, são próprio do período de desenvolvimento sensório-motor; o segundo, o indivíduo não se prende apenas a característica do objeto, mas as assimilações que faz, é o jogo de imaginação, de "faz de conta", próprio do período pré-operatório; e o terceiro, são os jogos que necessitam de regras a serem cumpridas, próprio do período operatório concreto, contudo, a criança que maior pode fazer uso do jogo de exercício ou do simbólico, mas a criança precisa ter o desenvolvimento necessário para realizar uma brincadeira simbólica ou de regras, se não, simplesmente não entenderá o objetivo do jogo.

A brincadeira simbólica, aquela que necessita da imaginação, é que será discutida no presente texto, por ser a mais presente em crianças entre 2 e 4 anos, que corresponde aos infantis I e II nas creches.

Através da simbolização, como vários autores disseram, é que a criança aprende, exercita o que aprendeu, investe e desenvolve seu potencial, desenvolve sua identidade, estabelece relações, assume papéis, imita suas referências: mãe, pai, professor (a), algum herói ou personagem favorito, ou seja, desenvolve aspectos importantes na construção da sua personalidade.
 



Mas, o que a criança aprende enquanto brinca?


A criança aprende coisas de diversas áreas do conhecimento diferente, desde música e arte até o desenvolvimento da linguagem, as percepções matemáticas e conceitos da psicomotricidade.

Desenvolve a linguagem, principalmente a oral, no próprio exercício da conversação nas brincadeiras com outras crianças ou adultos, quanto mais se fala, mais se desenvolve a oralidade.

Desenvolve percepções matemáticas, que são essenciais para o desenvolvimento do raciocínio lógico e até na construção do conceito de número, o elemento básico da matemática. Portanto, constrói o conceito de comparação a escolher a motoca azul ao invés da rosa, por esta ser azul; constrói o conceito de correspondência ao distribuir um pratinho de brinquedo a cada criança na brincadeira ou, até mesmo, na distribuição de papéis: "você é o papai, você é o filhinho e eu sou a mamãe"; o conceito de sequência e seriação ao organizar os brinquedos segundo alguma ordem, do maior para o menor, por exemplo, ou quando se organizam em fila para descerem no escorregador; a classificação, quando guardam os brinquedos diversos em suas caixas correspondentes: carrinho na caixa de carrinho e panelinha na caixa de panelinha entre outras percepções.

Desenvolve conceitos importantes da psicomotricidade, como dentro e fora, maior e menor, acima e abaixo, treina segurar os objetos: grosso, fino - conceitos importantes para o desenvolvimento da psicomotricidade e das percepções matemáticas, enfim, é brincando que a criança desenvolve conceitos essenciais para seu desenvolvimento escolar nos anos seguintes. Afinal, conceitos não são apenas ensinados, são construídos e é através da brincadeira que são construídos.

Quando se observa um grupo de crianças brincando é possível perceber algumas tomando posições de lideranças ao proporem as brincadeiras e algumas regras, percebemos associações entre as crianças: a turminha que brinca de casinha, a turminha que brinca de caçar insetos, a turminha que brinca de carrinho, a turminha que brinca de assistir TV e etc. Até percebemos aquelas que têm dificuldade de se sociabilizarem, que não conseguem se inserir em algum grupo e ficam provocando os colegas, ou aqueles que dizem: "fulano não me deixa brincar", ou aqueles que entram em conflito por divergência de ideias ou por quererem o mesmo brinquedo. Ainda tem aqueles que associam a brincadeira ao brinquedo de tal forma que querem pegar o brinquedo do outro para ver se consegue brincar da mesma forma, contudo, ao pegar o brinquedo, ele perde o sentido, afinal, o brinquedo por si só não é a brincadeira ou a imaginação do outro e é neste momento que o educador tem a oportunidade de intervir para auxiliar a criança a perceber que ele pode também criar uma boa brincadeira com este ou outro brinquedo, que tirar o brinquedo dos amigos só vai ajudar a não ser aceito pelo restante do grupo, que “bater não é legal, pois machuca”, dizer ao grupo para aceitar na brincadeira aquele excluído ou outras intervenções cabíveis.

Observando a brincadeira das crianças é possível perceber quem ela é, mais do que em outros momentos como em atividades gráficas, ou em rodas de conversa, conversas individuais ou, mesmo, perguntando aos pais sobre a criança.

Mas, então, o que é preciso para desenvolver ou proporcionar a brincadeira simbólica?

Com brinquedos é mais fácil, mas até sem eles é possível, podem ser carros ou pedras, bonecas ou uma garrafa pet, o importante é a imaginação, o significado, o sentido que aquele objeto vai possuir naquele momento, a capacidade de assumir, distribuir e trocar de papéis: agora eu sou a professora, ou o Batman, ou a mamãe, ou o dinossauro, ou estou dirigindo meu carro de Formula 1 ou outra simbolização que a criança fizer.

Ora, simbolizar é exatamente isto: a capacidade de internalizar símbolos que representem a realidade, a matemática é pura simbologia, assim como a escrita, é formada por símbolos gráficos denominados letras e a sociedade adulta existe a partir de símbolos importantes: o Estado, a moeda, a Religião, ideologias até mesmo superstições são simbologias, ou os papéis que assumimos como ser pai, funcionário, chefe, motorista, pedestre, consumidor, cidadão, professor, aluno etc. São papéis que assumimos e fazem parte da nossa identidade de quem nós somos e isso tudo começa na brincadeira simbólica lá na infância.

Para Winnicott (1979), a brincadeira é algo universal e próprio da saúde, se é algo que facilita o crescimento, portanto é saúde. O brincar conduz aos relacionamentos grupais, podendo ser uma forma de comunicação até na psicoterapia. A brincadeira traz a oportunidade para o exercício da simbolização e é também uma característica humana. Para este autor, as crianças brincam para buscar prazer, para expressar agressão, para controlar a ansiedade, para estabelecer contatos sociais, para realizar a integração da personalidade e, por fim, para se comunicar com as pessoas.

 

Portanto, brincar é saudável e faz parte da cultura humana, até adultos brincam. Contudo, o não brincar ou não proporcionar a criança momentos para que possa brincar explorar e desenvolver-se é mesmo que colocar enormes obstáculos para o seu desenvolvimento, alguns tão intransponíveis que a criança não consegue ultrapassar. O não brincar na escola é "matar" o aprendizado. Porque como diz o famoso texto de Anita Wadley, a criança aprende enquanto brinca e é através da brincadeira que ela aprende:

Quando estou construindo com blocos no quarto de brinquedos,
Por favor, não diga que estou apenas brincando.
Porque enquanto brinco estou aprendendo
Sobre equilíbrio e formas.
Quando estou me fantasiando,
Arrumando a mesa e cuidando das bonecas,
Por favor, não fique com a idéia que estou apenas brincando.
Porque enquanto brinco estou aprendendo.
Eu posso ser mãe ou pai algum dia.
Quando estou pintado até os cotovelos,
Ou de pé diante do cavalete ou modelando argila,
Por favor, não me deixe ouvir você dizer: ele está apenas brincando.
Porque enquanto brinco estou aprendendo.
Estou me expressando e criando.
Eu posso ser um artista ou um inventor algum dia.
Quando você me vê sentado numa cadeira
Lendo para uma platéia imaginária,
Por favor, não ria e pense que eu estou apenas brincando
Porque enquanto brinco estou aprendendo.
Eu posso ser um professor algum dia.

Quando você me vê procurando insetos nos arbustos,
Ou enchendo meus bolsos com todas as coisas que encontro,
Não jogue fora como se eu estivesse apenas brincando
Porque enquanto brinco estou aprendendo.
Eu posso ser um cientista algum dia
Quando estou entretido com um quebra-cabeça,
Ou com algum brinquedo na minha escola,
Por favor, não sinta que é um tempo perdido com brincadeiras
Porque enquanto brinco estou aprendendo
Estou aprendendo a me concentrar e resolver problemas.
Eu posso estar numa empresa algum dia.
Quando você me vê cozinhando ou experimentando alimentos,
Por favor, não pense que porque me divirto, é apenas uma brincadeira.
Eu estou aprendendo a seguir instruções e perceber diferenças.
Eu posso ser um “chef” algum dia.
Quando você me vê aprendendo a pular, saltar,
Correr e movimentar meu corpo,
Por favor, não diga que estou apenas brincando
Eu estou aprendendo como meu corpo funciona.
Eu posso ser um médico, enfermeiro ou um atleta algum dia.
Quando você me pergunta o que eu fiz na escola hoje,
E eu digo, eu brinquei,
Por favor, não me entenda mal.
Porque enquanto eu brinco estou aprendendo.
Estou aprendendo a ter prazer e ser bem sucedido no trabalho.
Eu estou me preparando para amanha.
Hoje, eu sou uma criança e meu trabalho é brincar.”


 

Referências

BARBOSA, Alessandra. A importância da valorização dos jogos e brincadeiras no processo ensino-aprendizagem e formação da personalidade infantil. Publicado em trabalhosfeitos.com. em jul. 2012. Disponível em: <http://www.trabalhosfeitos.com/ensaios/a-Import%C3%A2ncia-Da-Valoriza%C3%A7%C3%A3o-Dos-Jogos/294971.html> Acesso em 09 dez. 2013.

BENJAMIN, Walter. Reflexões: A criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus, 1984.

 

BOMTEMPO, Edda. Brincar, fantasiar e aprender. Revista Temas em Psicologia, v. 7 n. 1 p. 51-56, 1999. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v7n1/v7n1a05.pdf>. Acesso em 09 dez. 2013.

MUSEU DO BRINQUEDO. Disponível em: <http://www.museudosbrinquedos.org.br/modules/news1/index.php?storytopic=2> Acesso em 12 dez 2013.

PIAGET, J. (1946). A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

WINNICOT, Donald. A Criança e seu Mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

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